sábado, 12 de junho de 2010

O MALUCO


O MALUCO

Marise Jalowitzki


- Ontem eu vi uma cena bizarra! Fiquei até meio assim, sem saber o que pensar!
- Que amarra! Enfim, que foi?
- Tá vendo aquela casa, aquela? Em uma outra janela passou mais um rapazote pedindo comida.
- Verdade?! Que novidade! E ganhou?
- Ganhou! Pegou o saquinho de papel,
dentro havia um pastel
Se afastou sem dizer nada
cabeça baixa
sorrindo um riso matreiro
foi indo, indo
e ali, ó, naquele coqueiro,
Se abraçou no tronco inteiro
E riu, riu, um riso largo, grande,
alto
deslizou até o asfalto
abrindo os braços
segurando o saco de papel.
Ficou ecoando o riso, um riso que era só dele,
nós nem sabemos criar um tal riso
- Claro, 'tamos cheios da “normal-idade”.
- O rapaz era negro [claro]
Devia ser maluco [raro?]... pra rir daquele jeito... perfeito
A boca quase sem dente [evidente]... o perfil que já sabemos...
Acenou co'o rosto a alegria agradecida
a esmola recebida!
Gritou em seu gesto mudo
a falta
a escassez
o direito
tudo
tudo resumido em um pastel!

Sentou-se logo ali
continuei olhando e vi
quando abriu o saco de papel
comeu tudo - era só um pastel -
Quando acabou
Largou o saco
E saiu andando
caminhando seu destino já traçado.
- Ensina bem mais do que podemos aprender! Desapego, agradecimento, reverência!
- Bem mais que isso! Chama o compromisso que teimamos em não ver.
- É, eu fiquei pensando! Nem sabia o que pensar!
- Tente!
- Parecia que ele falou bem mais do que muita gente!
- E, tudo, de novo, apenas na reflexão?
- Como assim?
- É, bem assim. Tem um outro ali, ó, no chão, embaixo do plástico. Deitado, dormindo.
- Vamos lá ver???
-
-
-
-
-

Escrevi este poema para instigar a reflexão de cada um sobre o seu fazer efetivo frente a todos os processos de exclusão social que vivenciamos todos os dias.

Tomei por base a visão de um rapaz, aparentemente "maluco", mendigo, "morador de rua" como se diz agora, que, após receber uma esmola, um pastel, mostrou-se extremamente sorridente e grato. Seus gestos espontâneos, até mesmo alienados da realidade circundante, tendenciam para a gratidão que todos devemos ter para com o que recebemos, com aquilo que já temos.

E, também, remetem para a necessidade de uma ação mais efetiva de cada cidadão. O risco maior é quando as pessoas insistem em "se acostumar" e inserem estes quadros dentro da paisagem "normal", acreditando que nada mais pode ser feito.

Há muitas pequenas ações que cada um pode realizar. Quais as suas?

Abraços a todos!




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MARISE JALOWITZKI é escritora, consultora organizacional e
palestrante internacional, certificada pela IFTDO-USA, pós-graduação
em RH pela FGV-RJ, autora de vários livros organizacionais.
marisej@terra.com.br
F (51) 97056424
Porto Alegre - RS - Brasil
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