segunda-feira, 28 de junho de 2010

VAMPIROS-GALÃS



VAMPIROS - GALÃS
Marise Jalowitzki

Definitivamente, estamos vivendo um momento inusitado, de mudança de conceitos como nunca. Filmes apresentam personagens míticos em metamorfose e arrastam milhões de adolescentes e jovens que, ávidos por inovações, aceitam sem questionar o perfil apresentado e tentam imitá-lo. Sem reservas, os significados vão se modificando e VAMPIRO e LOBISOMEM vão se encontrar em um duelo que tem um motivo romântico: o amor de uma garota. Nisto, nada mais conservador. Não é uma batalha para exterminar milhares e milhares de "inimigos", como nos corriqueiros temas de filmes, tema, aliás, explorado à exaustão (violência + violência). No filme Eclipse, que estréia no Brasil nesta semana, a batalha é por amor e isso encanta as adolescentes que anseiam pelo amor do galã.

O fantástico sempre andou lado a lado com o concreto. O imaginário ocupa tanto ou mais espaço que o tocável. Assim, qual a realidade? Se milhões de pessoas vivem suas vidas produzindo filmes, livros, shows sobre o que gostariam que fosse; se milhões de pessoas fazem das encenações toda a sua atividade; e se outros tantos milhões obtêm a subsistência e mesmo a riqueza comercializando produtos, seja para a concretização dos eventos, seja para a aquisição de mais outros milhões que assistem, então, o que é o real? Entretenimento preenche um largo espaço de tempo e gera, muitas vezes, "oxigênio" para a alma As pessoas trabalham para poder manter sua sobrevivência e para ter brechas sempre maiores de lazer e diversão. A diversão e o lazer proporcionam saúde. Saúde amplia o palpável, fazendo com que o corpo possa ser e sentir por mais tempo. Assim, tudo é tão questionável.

A atração e sedução dos vampiros tem perpassado os séculos. Hoje, garotas pintam e tatuam os pescoços para simular as mordidas de um suposto vampiro, aderindo, assim, ao fã clube, suspirando pelo vampiro-galã. Moças e rapazes se vestem, penteiam e cultuam hábitos para se assemelhar aos personagens de Crepúsculo, Lua Nova, Eclipse, filmes baseados em best-sellers da literatura contemporânea. Nas exibições da saga, nada de caras horrendas, olhos esbugalhados, bocas gotejando sangue. Não, tudo está envolto por uma bruma de magia e mistério e os super-heróis costumam ser comedidos em seus contatos.

Nos filmes do passado, mesmo com todo o encantamento bipolar (sim, pois, ao mesmo tempo em que seduzia, aterrorizava os espectadores), a mensagem era de "Cuidado, Perigo! Um vampiro está à solta". Além de eternizar a amada na mesma maldição de perpetuidade vampiresca, os vampiros anteriores saiam à caça de outras vítimas, que em nada queriam aderir e "pertencer ao clube". O mais famoso de todos os vampiros, o lendário conde Drácula, chegou a ser noticiado com mais de 300 estacas nas cercanias de seu castelo (onde, na verdade, só esteve em visita), onde mais de 300 pessoas, suas vítimas, estariam espetadas após a ingestão de seu sangue pelo fascínora incontrolável.

Era o desejo e a necessidade de ingerir sangue, tal qual os carnívoros do reino animal que necessitam da carne crua como alimento diário. Agora, é diferente: além de contar com a já tradicional concordância da amada eleita, a maioria dos que pertencem ao grupo apresentam uma evolução: "sabem" de suas diferenças, sabem que chocam os valores da sociedade onde, por vezes, querem se inserir (tanto que frequentam a escola) e, para diminuir as diferenças, estão o tempo todo exercitando o controle para não atacar e obter o sangue in natura. Estão se tornando mais vegetarianos e selecionam a origem de um sangue mais "animal" que humano para sua dieta.

 O que isso ensina?

  • Que, para pertencer a um novo grupo é preciso, em primeiro lugar, tentar ajustar-se às regras estabelecidas por este grupo.

  • Que a lógica (cérebro racional) tem a função de passar informações para as sensações e sentimentos (cérebro emocional) para que a parte mais instintiva (cérebro reptiliano) não tente adonar-se da situação e perpetuar desastrosos modelos antigos de convivência.

Se até vampiros estão se esforçando para conter seus impulsos mais primitivos, quanto mais teremos nós, os que se denominam "normais" (produtos das normas), que introduzir mudanças efetivas em nosso agir cotidiano.

Saindo do campo da ficção e voltando para o lado mais concreto: O que é Vampiro para você? Você acredita em Vampiros? Como é o Vampiro que você concebe?

Em 2007 editei meu livro "Lidando com o Vampirismo nas Relações Interpessoais", algumas pessoas criticaram o título, sugerindo que eu selecionasse alguns textos ótimos (termos usados pelos leitores) e republicasse sob outro título. Entretanto, no Brasil e Portugal, ele (o livro) tem vendido bem e tenho recebido, também, comentários, depoimentos, elogios e pedidos de aconselhamentos.

Igualmente, acompanho muita gente publicando coisas sobre um tema que desconhecem e não falta quem já tenha publicado um "perfil" do vampiro: se você...e se você e..., então, você é vampiro! Gente, não dá para considerar mera alegoria. O assunto é sério. A não ser que seja para se fantasiar lá na festa de Halloween, em final de outubro.

Ainda assim, saúdo o movimento de desmistificação pois, no mínimo, contrapõe várias declarações fantasiosas e até míticas. E, o melhor, desarma os mais recolhidos, que passam a aceitar que somos influenciados e influenciadores, o tempo todo.



 Esta semana marca a estréia brasileira de Eclipse.
Vou dedicar mais espaço para novos comentários e artigos pois, creio, o tema merece.


Abraços a todos!
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MARISE JALOWITZKI é escritora, consultora organizacional e
palestrante internacional, certificada pela IFTDO-USA, pós-graduação
em RH pela FGV-RJ, autora de vários livros organizacionais.
marisej@terra.com.br
F (51) 97056424
Porto Alegre - RS - Brasil
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2 comentários:

  1. Marise,
    Gostei muito do texto!
    "Somos influenciados e influenciadores" reflete a responsabilidade que temos em manter a autonomia de pensamento, não nos deixando arrastar por mitos ou pelo efeito manada.
    Abraço

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  2. Como espero o dia em que as vozes do/no deserto tenham amplificadores!
    Um abraço, Moacir!

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