quinta-feira, 5 de agosto de 2010

CIGANOS! VOCÊ TEM MEDO?

Ciganos são conhecidos por suas profecias, previsões e maldições


CIGANOS! VOCÊ TEM MEDO?
Marise Jalowitzki

A mulher, nervosa, quase chorando, entrou no coletivo exclamando:

- Cigana ladrona, me roubou sem dó!

Sentou ao lado de um homem que, cabisbaixo e triste, olhou vagarosamente para ela, sem nada dizer. A mulher continuou, mirando-o diretamente:

- Eu vinha andando, vi aquele bando de mulher de saia fininha e comprida vindo em minha direção. Sabia que eram elas, as ciganas. Desde pequena tive medo de ciganas. Elas rogam praga e pega mesmo!

O homem levantou ainda mais lentamente as pálpebras, sem pronunciar palavra. Era a atenção de que ela necessitava.

- Vieram de três p'ra cima de mim! Uma me pegou pelo braço, me levou mais para um canto do chafariz da praça. Parecia que tinha me hipnotizado! Minhas pernas tremiam, mas eu fui! Que m...! Eu fui! Queria ir embora, mas fiquei ali!

Pausa.
O homem não esboçava nenhuma reação. Ela falou mais alto.
- Pediu dinheiro. Pediu p'ra ver minha carteira. E eu deixei ela mexer na minha bolsa! Disse que eu tinha um feitiço que fizeram. Que ela podia tirar o feitiço que tudo ia melhorar na minha vida; bastava ela fazer uma reza forte, que só ela sabia fazer e acender umas velas. Eu me sentia presa, ela se abaixou, sem largar minha mão, foi me puxando para que eu também ficasse acocorada. Ali, na calçada, louca de vergonha! Entreguei a carteira!

O homem, desta vez, olhou para ela e fez que sim com a cabeça. A mulher continuou:
- O que acontece com a gente p'ra fazer o que não se quer fazer? O senhor não sabe? O senhor não fala nada?
- Também me pegaram. E fizeram a mesma coisa!
.-.

Presenciei este diálogo há uns três anos. Já vi, por diversas vezes, o grupo de ciganas ao redor do chafariz da praça Montevideo no centro da cidade de Porto Alegre, há pelo menos 25 anos. Sempre estiveram ali. Sempre pedem dinheiro. Ou cigarro. Prometem sorte em troca de algum. Insistem. Uma vez quiseram ler minha mão. Mas não "atacam".

Agora, neste final de semana, assisti a uma reportagem que falava em denunciar como estelionato. Algumas pessoas estão achando que elas estão forçando a barra.

Como encarar essa situação? As pessoas se queixam de abordagens invasivas. Que, convenhamos, não são só de ciganas. No caso delas, muitas pessoas se deixam submeter. Mais que por ingenuidade, por medo. As ciganas, suas históricas predições, pragas e maldições lidam com o imaginário popular, com as lendas e crendices! Quem não conhece alguma história de alguém que se danou por não ter atendido aos desejos e ordens de uma cigana?

Atualmente, estão proliferando associações que procuram resgatar a cultura despojada dos ciganos, que mescla comércio, dança, sensualidade, predições e vida nômade. É um trabalho de inclusão que fica comprometido sempre que uma situação como a descrita acontece e é divulgada de uma forma que parece ameaçadora para a população.

Creio que algumas pessoas precisam começar a desenvolver uma postura mais serena frente ao modo de ser desses personagens. E de tantos outros, que, no afã de obter os seus resultados, tornam-se mais insistentes. Assim são os ambulantes, os que entregam folders, os que querem tirar uma foto sua para que se "torne um(a) modelo fotográfico(a)", para que "receba um brinde", "ganhe em um sorteio", "você foi contemplado!". Tantas coisas.

Para conseguir maior isenção e colocar limites é preciso reforçar a auto estima. Reforçar a auto estima passa por aumentar a auto confiança. Que tem a ver com exercitar o "não" quando não quer alguma coisa; só aceitar aquilo pelo que tiver interesse.

Assim, se você sente muito medo, pode optar por nem chegar perto! Atravesse a rua. Se for interpelado(a) de surpresa, apresse o passo e siga em frente, sem olhar para os olhos da pessoa abordante. Se lhe segurarem o braço com força, vá mais rápido e agradeça: "Não, obrigado(a)!" Tenha certeza, as pessoas desistem. Simples assim.

Abordagens inofensivas devem ser encaradas com serenidade. Por mais entusiasmado e insistente que o outro seja, a firmeza na negativa tem o efeito necessário para neutralizar a continuidade.


Minha Experiência com Ciganos

A comercialização dos ciganos nômades
 inclui utensílios domésticos
Morei por mais de uma década em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul - Brasil. Lá, eram frequentes os acampamentos de ciganos que, de um dia para outro, erguiam várias tendas, grandes e coloridas, em terrenos mais pelos arredores da cidade. Também havia algumas famílias que moravam em casas grandes de alvenaria e suas festas eram alegres e bastante ruidosas e duravam dias. As roupas típicas, as cores fortes, os produtos para comércio - especialmente artefatos de cozinha. Os práticos tachos, cheios de fantasias. Também revendiam carros.

Tudo fazia parte de um quadro conhecido: um sotaque específico, olhares penetrantes, fala firme, obstinação em convencer.

Certa vez eu e meu irmão menor passamos em frente a um desses acampamentos. Em nossos 12 e 09 anos, ficamos deslumbrados e... apavorados, pois crescemos ouvindo que ciganos roubavam crianças, os homens seduziam as garotas que fugiam de casa para segui-los, as pragas que saíam das bocas das ciganas mais velhas e que poderiam resultar até em morte. Elas liam as mãos e, depois das previsões, o consulente era obrigado a seguir à risca as recomendações, senão... crââân!...

Ficamos, naquela ocasião, silenciosos e atemorizados, parados, olhando. Um cigano de seus 50 anos, creio, foi pisando forte com sua grande bota preta sobre o capim crescido e aproximou-se de nós. Entramos meio que em pânico, mas não nos movemos.

-Querem conhecer a tenda?

Sorriu, apareceu um grande e assustador dente de ouro, seus pulsos e pescoço tinham argolas e correntes e, o "pior": ele portava um pequeno punhal. Meu Deus! Estávamos fritos! Meio automatizados, fomos arrastando os pés em direção à grande tenda, que tinha uns ambientes totalmente abertos e vistosamente coloridos. Quando estávamos quase perto da entrada, ele pôs a mão no grande bolso à direita de seu corpo e tirou dali... um pedaço de fumo para picar com o punhal e fazer seu cigarro-palheiro!!! Olhamos só um pouquinho, tudo era novo e brilhante. E... saímos correndo! Já em casa, esbaforidos, falamos aos borbotões:

- Eles queriam nos pegar! Quase nos arrastaram, mas nós conseguimos nos soltar e saímos correndo.

- É, o cigano tinha até uma faca p'ra nos matar!

E ficou assim. Depois de um forte xingão materno, voltamos a brincar com nossos amigos. Naquela tarde fomos os heróis da "tchurminha" e mais um "causo" foi juntado a outros tantos que já se contavam sobre os ciganos.

É isso aí!


Trabalhando a Inclusão

Fatos como esses nos remetem a questões antigas e que parecem já estar incorporadas ao modo de agir da sociedade em geral. Não compreender leva a não aceitar; não aceitando, tentar excluir. Segregar, expulsar, prender, punir. Tantos verbos que remetem a preconceitos, acirram os ânimos, geram ressentimentos.


Ao invés de segregar, a proposta é aprender a conviver.

Ao longo dos séculos os ciganos tem conseguido sobreviver enquanto grupo e a lição que nos passam, e que vai bem além de mitos e arquétipos, é a da tenacidade. E que seus cantos e danças possam continuar por muito tempo enfeitando histórias e ilustrando aventuras.

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MARISE JALOWITZKI é escritora, consultora organizacional e
palestrante internacional, certificada pela IFTDO-USA, pós-graduação
em RH pela FGV-RJ, autora de vários livros organizacionais.
marisej@terra.com.br
http://www.compromissoconsciente.blogspot.com/
http://www.marisejalowitzki.blogspot.com/
Porto Alegre - RS - Brasil
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