quarta-feira, 21 de julho de 2010

ASCENSÕES METEÓRICAS E NOÇÃO DE LIMITES



ASCENSÕES METEÓRICAS E NOÇÃO DE LIMITES
Marise Jalowitzki

Brasil continua acompanhando o caso do goleiro Bruno. O trágico caso de um assassinato brutal. Deturpadas noções de vida e valores. A história da Humanidade está perpassada de registros cruéis, secos, insólitos, absurdos. O que ainda domina? O Bem. Sim, pois ao constatar a perplexidade de tantas pessoas que, há semanas, acompanham o andamento das investigações, as novas informações e depoimentos, não podemos, simplesmente, dizer que é apenas curiosidade por algo, de novo, que arrepia. Não. Os comentários trazem questionamentos e reflexões sobre muitos aspectos:
- O que significa a vida de outra pessoa para alguns?
- Como é o enfrentamento das situações de conflito?
- Como algumas pessoas costumam se "livrar" dos problemas que as afligem?
- Como são encaradas as questões de script de vida do pequeno órfão? Qual a formação que essa criança terá? Baseada em que pilares familiares?

Ainda vivemos em um mundo que enterra seus mortos, que tem um feriado dedicado à memória deles. Pode ser tudo muito hipócrita. Os cemitérios viram feira de ofertas. As praias e lugares de lazer são mais procurados. Mas, o instituído, a chamada moral instituída, ainda preconiza um culto de respeito. Quais os valores e crenças de pessoas que cortam um corpo sem hesitar, jogam aos cães os restos mortais para ocultar pistas e identificações?

E essas são pessoas que aplaudíamos, que recebiam ovações de participantes, de torcidas, que eram bem queridas por muitos devido ao bom desempenho em campo.

A quem queremos aplaudir agora?

Independente do fecho que essa história há de ter é "apenas" mais uma história entre tantas. Agora, há um porém: se alguém está a dar de ombros, achando que as coisas "são assim mesmo", que nada há para se fazer, alto lá! Há, sim! E urgente! Vida é feita de tentativas. Tentativas que podem levar a resultados excelentes, resultados "mais ou menos" ou nenhum resultado. Mas é preciso continuar tentando. Sempre. É essa constância de propósito que pode fazer a diferença daqui a algum tempo, em tudo.

Chamo a atenção para a prevenção, em uma sociedade que vive imersa em remediação. As leis falam em flagrante para comprovar; em provas concretas para provar. E afrouxam criminosos, culpados confessos, de crimes hediondos, por reversão de pena.

O que resta ao cidadão comum? Mudar suas filosofias, sua visão de mundo.

O que precisa acontecer dentro de todos os times, dentro de todas as agremiações? Prevenção! Como? Trabalhando as pessoas, investindo em eventos constantes, rotineiros, de auto conhecimento, de desenvolvimento de equipes, de conhecimento e respeito às emoções dos outros, do convívio com idéias diferentes e, quiçá, divergentes. É preciso dotar cada vez mais e mais pessoas de encontros e situações onde tenham a oportunidade de conhecer, pensar, agir e interagir em grupo para modificar scripts, para melhorar a percepção e otimizar reações e relacionamentos.

Pegando só a realidade brasileira. Jogador de futebol é a carreira que proporciona uma das ascensões mais meteóricas aos que viram craques. Geralmente, as histórias são assim: Infância pobre, pais separados ou inexistentes, pé descalço, campinhos de várzea, sem recursos, escolas públicas, quantas vezes até falta de alimentação correta. Em questão de poucos anos, um menino simples, criado em favela, criado em uma vida com muita privação, cheio de carências afetivas e financeiras, convivendo com a falta de segurança diária, passa a ser reverenciado, milhares de pessoas gritam seu nome quando entra nos estádios, a conta bancária recebe cifras que o novo ídolo nem sabe contabilizar. De repente, tudo fica tão fácil! Se antes era difícil comprar um par de chinelos de borracha, agora, comprar casa para mais de um membro da família, até mesmo para amigos, virou barbada. Não faz diferença dar festas antes inimagináveis, dinheiro não é mais problema. Também não é mais problema ter a mulher que quiser, não é mais problema envolver-se em escândalos que, "paga-se a fiança" e "tudo se resolve neste país". - Afinal, este não é o país da impunidade? Não é aqui que tudo se resolve com dinheiro? Basta pagar, ter relações, que todos "livram a cara"?

Esta sensação de que "tudo pode" é que é a responsável pela ausência de uma noção de limites. O cara assume a condição de semi-deus, impune, inalcansável. Doidice de quem pensa assim? Não mesmo! É a própria sociedade que financia tudo isso! Os realittyshows da vida também mostram o mesmo quadro. Pessoas que vencem algum concurso ou programa, tendo vindo de uma situação bastante humilde, a priori, em pouco tempo, dilapidam o patrimônio que receberam e voltam à situação de escassez de antes. Falta de visão. Falta de noção. Falta de limites. Falta de planejamento. Falta de administração. Falta de metas.

Quando escrevi o artigo sobre o Dunga, em um dos sites em que ele foi publicado, uma pessoa incomodou-se, achando o texto por demais "corporativo". A Vida é uma grande corporação. Somos organizados por leis e normas que procuram reger passos, decisões, modos de pensar e agir. Alguns se rebelam e conseguem mudanças positivas, a médio ou longo prazo. Outros, se rebelam ou "não estão nem aí" e conseguem realizar grandes estragos. A maioria, entretanto, apenas segue, apenas executa, não pensa, não reflete, apenas consome e executa. É para esses que entrego estas palavras. Para que aceitem o convite para a reflexão. Isto também é Responsabilidade Social.

A "Organização Mundial" chamada Terra precisa investir em seus astros. Por eles mesmos, os astros; por aqueles que convivem com eles, familiares, amigos, fãs. Essas pessoas (os astros), são ídolos, são influenciadores e formadores de opinião de muitos. Precisam receber todo um ensinamento e prática nas questões sociais, nos relacionamentos e traquejos com os demais.

Em minha lide profissional, sempre insisti para que se implementassem encontros sistemáticos nos diferentes grupos organizacionais. Rever papéis, conhecer mais o outro, dividir anseios e planejar futuro, sempre foram temas que, quando consegui que acontecessem, geraram excelentes resultados individuais, grupais e corporativos. A maioria das empresas contratava alguns eventos (o máximo foi 32 horas com um mesmo grupo) e se acabava por aí. Mesmo quando algum gerente chamava para continuar trabalhando a sua equipe, mesmo havendo verba disponível, os encontros não saíam, sob a alegação de que o "gestor estava ficando dependente". Como se vida não fosse um processo, contínuo, interminente, constante. E as pessoas, seres cambiantes em suas verdades.

Voltando ao mundo futebolístico. Sei de alguns times de futebol que contratam palestrantes "motivacionais", palestras-show, teatros, mas, bem poucos é que realizam encontros regulares de auto conhecimento e troca. A presença de um(a) facilitador(a) de grupos ainda é visto como "perda de dinheiro e de tempo". Vivemos em um meio que, a grosso modo, ainda acredita que "orientação psicológica" é para quando se registra "um desvio" e "encontros de convivência" é para resolver um caso de bulling... Temos muito a andar! Tenho certeza de que no dia em que o verdadeiro trabalho em grupo se tornar uma rotina, quer sejam cidadãos comuns, quer sejam astros e ídolos, todos terão mais noção de si próprios, mais noção do que significam os que estão a seu redor, mais noção de quem influenciam e, assim, poderão avaliar mais pontualmente onde irão levar suas decisões; quais os riscos de suas ações; quais os resultados de Vida.

Limites: até onde posso ir e o que isso acarreta ao outro.

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MARISE JALOWITZKI é escritora, consultora organizacional e
palestrante internacional, certificada pela IFTDO-USA, pós-graduação
em RH pela FGV-RJ, autora de vários livros organizacionais.
marisej@terra.com.br
http://www.marisejalowitzki.blogspot.com/
F (51) 97056424
Porto Alegre - RS - Brasil
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