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quinta-feira, 8 de junho de 2017

TDAH - Maior estudo já realizado no mundo sobre diferenças de volume de cérebro subcortical no Transtorno do Déficit de Atenção traz Divergências, recebe Críticas e Respostas - Pesquisas continuam



"De acordo com Dehue e colegas, as descobertas originais “não mostraram diferenças significativas no cérebro de adultos com TDAH, o que sugere que as pequenas diferenças nas crianças desaparecem principalmente quando crescem. (Lancet PsychiatryEsta descoberta poderia ter sido notícia destacada como manchete, dadas as alegações de empresas farmacêuticas comerciais e especialistas patrocinados que TDAH é um transtorno ao longo da vida em necessidade de tratamento durante toda a vida." (MadInBrasil)


Lembrando sempre que estudos científicos são estudos. Após a publicação dos resultados vão para análise dos órgãos reguladores internacionais e, somente após acurada análise, podem ser aprovados. Nada disso ainda aconteceu, com nenhum dos estudos sobre tdah até agora publicados.



Por Marise Jalowitzki
08.junho.2017
http://compromissoconsciente.blogspot.com.br/2017/06/tdah-maior-estudo-ja-realizado-no-mundo.html


Desde fevereiro andam circulando comentários e questionamentos se "agora" efetivamente está "comprovado" que há mudanças estruturais "para menor" no cérebro das crianças e adultos tidas como tdah. Há um artigo, inclusive, da associação brasileira que parece dar "como comprovação certa" tal afirmação, baseado em um estudo científico considerado o maior de todos os tempos. Sim, este estudo efetivamente aconteceu e foi publicado no Lancet Psychiatry, considerado o mais sério no tema. O que não aconteceu é a comprovação (!) além de informações controversas na própria explanação do desenvolvimento da análise e seus resultados! Está tudo nesta página! Querendo, leia.

Pois, quando li o original (http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(17)30049-4/fulltext -veja ao final, traduzido em português), como não domino inglês, li e reli e pensei: É minha "leiguice" que me dá a impressão que alguns dados parecem não encaixar. Mas, não! Não fecham mesmo! Efetivamente, erros foram encontrados na publicação dos resultados, o que fez com que a comunidade científica que não apoia a teoria que tdah é uma "doença mental" se posicionasse, evidenciando as divergências e solicitando que o Lancet retirasse a publicação.
"Embora isso tenha levado a uma petição para a retirada do artigo, a equipe editorial da Lancet Psychiatry decidiu publicar uma correção e depois dedicar uma edição inteira a exibir as críticas e uma réplica de Hoogman e colegas."Os pesquisadores também reconheceram a disparidade em alguns dados, mas o artigo não foi retirado. Lancet decidiu por abrir uma nova edição, dando espaço para a continuidade das discussões de ambos os lados. O que isto acarreta? Que pessoas "apressadas", ou não muito bem informadas-intencionadas, peguem apenas o original, não comentem nada sobre as reações posteriores e as evidências divergentes encontradas e faça com que tudo (como costuma acontecer no Brasil), continue sendo "vendido" como se já estivesse coprovado, dando a entender como "fato feito" e não como uma pesquisa que precisa de novos estudos e revisões.





 Mas a realidade é; NADA ESTÁ CONCLUSO, exceto nossa NECESSIDADE E COMPROMISSO EM AMAR NOSSOS PEQUENOS, acolhendo-os e realizando da melhor forma a adequação de metodologias escolares, a promoção de ambientes não hostis, onde eles possam se sentir à vontade, aceitos e queridos! Isto é Saúde! 

O sofrimento psíquico existe, sim, pois, quem gosta de ser constantemente criticado? 

Cabe ao mundo adulto efetuar a promoção de um ambiente mais condigno com a natureza sensível destes amados.

"Mesmo nos casos diagnosticados, em mais de 80% dos casos, não é preciso medicação! Apenas mudança na forma de tratar e terapia psicológica".
(Dr. Sérgio Barbirato - RJ)



Querendo, leia o que foi publicado no MadInBrasil e conheça os fatos:

O controverso estudo sobre TDAH publicado em Lancet Psychiatry: Erros, Críticas e Respostas
Em meio a chamadas para uma retratação, o renomado periódico científico Lancet Psychiatry abre suas páginas para artigos criticando a descoberta original e para uma resposta dos autores.
Peter Simons
 De
 -

05/18/2017

Em 17 de fevereiro de 2017, Lancet Psychiatry publicou um artigo controverso que alegou haver encontrado diferenças cerebrais entre crianças com um diagnóstico de transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e crianças sem. Os autores, liderados por Martine Hoogman, do Instituto Donders de Cérebro, Cognição e Comportamento, Holanda, afirmaram que sua evidência apoiou a teoria de que o TDAH é um distúrbio cerebral.
Na verdade, Hoogman e colegas vão tão longe em seu artigo original a ponto de dizerem: “Nós confirmamos, com análise muito rigorosa, que os pacientes com TDAH têm cérebros alterados; portanto TDAH é uma doença do cérebro. ”
Essa conclusão exagerada desencadeou uma tempestade de imediatas controvérsias. Pesquisadores tão proeminentes como Allen Frances, presidente da força tarefa DSM-IV (que escreveu o livro sobre categorias de diagnóstico), se juntou para denunciar o estudo. Em um artigo em que Frances é coautor ele declarou explicitamente:
 “O argumento mais importante contra a conclusão dos autores de que ‘pacientes com TDAH têm cérebros alterados’ é que ele não tem suporte em suas próprias descobertas.”
Eles acrescentam que a conclusão de Hoogman e colegas “é extremamente especulativa e perigosamente enganosa num momento em que o TDAH já está superdiagnosticado e ocasião para o sobretratamento com medicação em países de renda média e alta”.
Isso fez parte de um esforço maior de pesquisadores em vários países para examinar os dados estranhos e problemáticos apresentados por Hoogman e colegas. O erro mais óbvio no artigo original foi a troca das duas variáveis em uma análise, o que resultou em um gráfico mostrando que os indivíduos com TDAH pareciam ter QIs mais elevados do que os indivíduos saudáveis do grupo de controle – um achado surpreendente que contradiz a pesquisa anterior.
Em resposta à crítica, Hoogman e colegas reexaminaram seus dados e descobriram que isso era, de fato, um erro – seus achados foram consistentes com pesquisas anteriores sugerindo que os sintomas de TDAH estão associados com um desempenho mais pobre em medidas de QI padronizadas.
Os pesquisadores, liderados por Susanne Bejerot, da Universidade de Orebro, Suécia, reanalisaram os dados corrigidos e concluíram que, ao controlar os novos dados de QI, muitas das diferenças cerebrais observadas desaparecem.
“Não encontramos diferença significativa entre os indivíduos com TDAH e aqueles no grupo de controle, em qualquer uma das áreas investigadas do cérebro, quando a diferença de QI é controlada”.
Em sua resposta, Hoogman e colegas reconhecem que “porque um QI ligeiramente mais baixo pode ser uma característica de ADHD, ajustando para o QI removerá efeitos do transtorno em regiões do cérebro associadas com TDAH e QI.” Ou seja, reconhecem que ao controlar as diferenças no QI, suas supostas diferenças cerebrais desaparecem. Eles argumentam que menor QI é causada por TDAH e não deve ser estatisticamente controlado. Esta é uma abordagem controversa para a pesquisa de TDAH, na medida em que a causalidade não foi demonstrada e baixo QI não é um critério para um diagnóstico de TDAH. Assim, quaisquer diferenças cerebrais encontradas são susceptíveis de serem devidas simplesmente a diferenças no QI, não ao diagnóstico de TDAH.
Os críticos do estudo (cf. o relatório do Mad in America)  também vêem este erro como iluminando seu problema fundamental: eles alegam que Hoogman e seus colegas estavam ansiosos demais para provar sua hipótese e não examinaram cuidadosamente quais resultados poderiam ser apoiados por seus dados. Críticos argumentam que esse erro deveria ter sido pego por Hoogman e colegas, pelos revisores que aprovaram o artigo, ou pela equipe editorial da revista que publicou. Que uma descoberta tão incomum e convincente passou completamente despercebida e não reportada indica aos críticos que os autores, revisores e equipe editorial foram tão tendenciosos devido à sua percepção de TDAH como uma desordem cerebral que eles ignoraram provas substanciais mostrando o contrário.
Embora isso tenha levado a uma petição para a retirada do artigo, a equipe editorial da Lancet Psychiatry decidiu publicar uma correção e depois dedicar uma edição inteira a exibir as críticas e uma réplica de Hoogman e colegas.
Entre os artigos críticos do estudo original estava uma análise conduzida por Trudy Dehue da universidade de Groningen, Holanda. Dehue e colegas descobriram que os resultados originais realmente mostram que para adultos não houve diferença no volume cerebral entre aqueles com TDAH e aqueles sem. Mesmo para crianças, Dehue e colegas argumentam que o pequeno tamanho de efeito encontrado indica que havia uma considerável sobreposição no tamanho do cérebro entre os dois grupos (95% das duas populações sobrepostas). Ou seja, mesmo em média havia tanta sobreposição que apenas os extremos eram relevantes. Outra maneira de olhar para esta descoberta é que 95 em cada 100 crianças com diagnóstico de TDAH teve um volume cerebral que corresponde ao de uma criança no grupo de controle de saudáveis.
De acordo com Dehue e colegas, as descobertas originais “não mostraram diferenças significativas no cérebro de adultos com TDAH, o que sugere que as pequenas diferenças nas crianças desaparecem principalmente quando crescem. Esta descoberta poderia ter sido notícia destacada como manchete, dadas as alegações de empresas farmacêuticas comerciais e especialistas patrocinados que TDAH é um transtorno ao longo da vida em necessidade de tratamento durante toda a vida.

Dehue e colegas, de fato, chegam a afirmar explicitamente:
     “Não há nada que nos permita dizer que uma criança com TDAH tem um distúrbio cerebral.”
Outro artigo publicado pela Lancet Psychiatry neste mês abordou a descoberta original de que as áreas de processamento emocional do cérebro estavam implicadas como diferentes entre crianças com diagnóstico de TDAH e crianças sem o diagnóstico. Os autores, Alison Poulton e Ralph Nanan na Universidade de Sydney, Austrália, argumentam que, como antes, Hoogman e colegas deveriam ter destacado esta descoberta inesperada. Poulton e Nanan indicam que não há componente emocional para o diagnóstico de TDAH e questionam por que os pesquisadores encontrariam uma diferença cerebral desse tipo. Seu argumento é que o diagnóstico de TDAH muitas vezes se sobrepõe com outros diagnósticos comumente dados na infância, como transtorno desafiante de oposição (TDO), cuja característica proeminente é a desregulação emocional.
Poulton e Nanan argumentam que muitas das descobertas de Hoogman e colegas são realmente devido à baixa especificidade do diagnóstico de TDAH e sua sobreposição com outros diagnósticos. Se os resultados estão relacionados com TDO ao invés de TDAH, isso põe em questão se os dados podem ser usados para sugerir que o TDAH é um distúrbio cerebral.
Hoogman e colegas simplesmente concordam com esta crítica e afirmam que esperam investigar mais. Eles não abordam as implicações que isso tem para a interpretação de seus resultados.
O diagnóstico de TDAH tem sido controverso. A principal crítica tem sido o afrouxamento das categorias diagnósticas, o que leva ao sobrediagnóstico. Os críticos argumentam que os critérios para o diagnóstico de TDAH são tão frouxos que quase ninguém poderia receber o diagnóstico (um critério é “sentimentos de inquietação”, por exemplo). Outros estudos mostraram que são as crianças mais novas em sala de aula que estão mais propensas a receber um diagnóstico, e são mais de duas vezes mais propensos a receber medicação estimulante do que as crianças mais velhas. Pesquisadores teorizam que as crianças mais jovens brigam mais na escola e estão em estágio de desenvolvimento mais precoce do que as crianças que estão quase um ano mais velhas – o que pode torná-las mais propensas a se encaixar nos critérios comportamentais para o diagnóstico de um transtorno mental.
Um artigo publicado no New York Times em 2013 expôs práticas de publicidade enganosa da indústria farmacêutica (tanto para médicos quanto para consumidores), que resultaram em inúmeras investigações e punições da agência FDA, ligando tais práticas ao aumento do sobrediagnóstico e sobreprescrição de TDAH.
Dr. Keith Connors, que ajudou a orientar a construção da ideia de TDAH e que conduziu os primeiros estudos sobre metilfenidato (Ritalina), diz que nos últimos anos, ele começou a entender que seu trabalho tem sido desastrosamente mal utilizado. Ele diz que “anunciou aos colegas atordoados que o diagnóstico exagerado do TDAH era ‘uma epidemia de proporções trágicas’ “.
              “Trágico, porque muitas crianças recebem o diagnóstico errado e aquele que realmente têm algum problema diferent, que precisa de um tratamento diferente, não recebe. Ou são jovens normais a quem é dado um tratamento que não precisam; ou as drogas prescritas para eles são dadas ou vendidas a outros estudantes que querem uma solução rápida para estudar ou festejar – esta é uma das razões porque escolas e faculdades agora têm um grande número de estudantes usando drogas estimulantes e porque as salas de emergência estão cada vez mais sobrecarregadas com jovens em overdose. “
Hoogman e colegas foram obrigados a responder aos argumentos de pesquisadores proeminentes de que os seus dados apoiam uma ideia de que o TDAH não é um distúrbio cerebral. Eles tiveram a boa vontade para admitir algumas limitações, tais como reconhecer que erraram nos relatos dos escores de QI e que isso afetaria seus resultados. No entanto, apesar de suas descobertas sugerirem exatamente o oposto, eles continuam a argumentar que “TDAH é um transtorno conforme todos os padrões de nosologia psiquiátrica”. Ou seja, mesmo que não seja apoiada por seus dados, eles reivindicam o senso-comum que TDAH é um distúrbio cerebral!!
Hoogman e seus colegas resumem bem o argumento de seus críticos:
             “As críticas feitas nessas cartas, cujo efeito é de pequena dimensão, na verdade implicam que devemos usar apenas o termo desordem do cérebro quando todo mundo com o transtorno mostra o mesmo padrão de anormalidades cerebrais. Por essa definição, nenhum transtorno psiquiátrico seria uma desordem cerebral. “
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Batstra, L., te Meerman, S. Conners, K., & Frances, A. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults. Lancet Psychiatry. http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30107-4
Bejerot, S., Nilsonne, G., & Humble, M. B. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults. Lancet Psychiatry. http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30160-8
Dehue, T., Bijl, D., de Winter, M., Scheepers, F., Vanheule, S., van Os, J. . . . Verhoeff, B. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults. Lancet Psychiatry. http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30158-X
Hoogman, M., Buitelaar, J. K., Faraone, S. V., Shaw, P., & Franke, B. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults – Authors’ reply. Lancet Psychiatry. http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30200-6
Hoogman, M., Bralten, J., Hibar, D.P., Mennes, M., Zwiers, M. P., Schweren, L. S. J. . . . Franke, B. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults: a cross-sectional mega-analysis. Lancet Psychiatry, 4, 310–19. http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30049-4
Poulton, A., & Nanan, R. (2017). Subcortical brain volume differences in participants with attention deficit hyperactivity disorder in children and adults. Lancet Psychiatry.http://dx.doi.org/10.1016/S2215-0366(17)30105-0





 Peter Simons MIA-UMB News Team: Peter Simons tem formação em ciências humanas onde estudou inglês, filosofia e arte. Agora está em seu doutorado em Psicologia de Aconselhamento, sua pesquisa recente tem se concentrado em conflitos de interesse na literatura de pesquisa psicofarmacêutica, o uso de medicamentos antipsicóticos no tratamento da depressão, e as implicações filosóficas e sociopolíticas gerais da taxonomia psiquiátrica no diagnóstico e tratamento.





Texto original publicado no Lancet (http://www.thelancet.com/journals/lanpsy/article/PIIS2215-0366(17)30049-4/fulltext)


Diferenças de volume de cérebro subcortical em participantes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade em crianças e adultos: uma mega análise de seção transversal

Abstrato
FUNDO:
Os estudos de neuroimagem mostraram alterações estruturais em várias regiões do cérebro em crianças e adultos com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). Através da formação do grupo de trabalho internacional ENIGMA ADHD, buscamos abordar fraquezas de estudos de imagem e meta-análises anteriores, a saber, tamanho de amostra inadequado e heterogeneidade metodológica. Pretendemos investigar se existem diferenças estruturais em crianças e adultos com TDAH em comparação com aqueles sem esse diagnóstico.

MÉTODOS:
Nesta mega análise, utilizamos os dados da colaboração internacional do Grupo de Trabalho ENIGMA, que na presente análise foi congelada em 8 de fevereiro de 2015. Os sites individuais analisaram as varreduras cerebrais estruturais T1 com IRM com protocolos harmonizados de indivíduos com TDAH em comparação com aqueles que não possuem esse diagnóstico. Nosso principal resultado foi avaliar as diferenças caso-controle em estruturas subcorticais e volume intracraniano através da combinação de todos os dados individuais de todas as coortes nesta colaboração. Para essa análise, os valores de p foram significativos na taxa de descoberta falsa limite corrigido de p = 0 · 0156.

RESULTADOS:
Nossa amostra incluiu 1713 participantes com ADHD e 1529 controles de 23 sites com idade média de 14 anos (faixa 4-63 anos). Os volumes dos accumbens (d = -0,15 de Cohen), amígdala (d = -0,19), caudado (d = -0,11), hipocampo (d = -0,11), putamen (d = - 0 · 14) e o volume intracraniano (d = -0 · 10) foram menores em indivíduos com TDAH em comparação com controles na mega análise. Não houve diferença no tamanho do volume no pallidum (p = 0 · 95) e no tálamo (p = 0 · 39) entre pessoas com TDAH e controles. A modelagem exploratória da vida útil sugeriu um atraso na maturação e um atraso na degeneração, já que os tamanhos dos efeitos foram mais altos na maioria dos subgrupos de crianças (<15 adultos="" anos="" versus=""> 21 anos): nos accumbens (Cohen's d = -0,19 vs - 0 · 10), amígdala (d = -0 · 18 vs -0,14), caudado (d = -0 · 13 vs -0, 07), hipocampo (d = -0 · 12 vs -0 · 06), Putamen (d = -0 · 18 versus -0 · 08) e volume intracraniano (d = -0 · 14 vs 0 · 01). Não houve diferença entre crianças e adultos para o pálido (p = 0 · 79) ou tálamo (p = 0 · 89). As diferenças de casos e controles em adultos não foram significativas (todas p> 0 · 03). 

O uso de medicação psicossimilhante (todos p> 0 · 15) ou os escores de sintomas (todos p> 0 · 02) não influenciaram os resultados, nem a presença de transtornos psiquiátricos comórbidos (todos p> 0,5).

INTERPRETAÇÃO:
Com o maior conjunto de dados até o momento, adicionamos novos conhecimentos sobre reduções bilaterais de amígdala, accumbens e hipocampo no TDAH. Estendemos a teoria do atraso da maturação do cérebro para o TDAH para incluir estruturas subcorticais e refutar os efeitos da medicação sobre o volume cerebral sugerido por meta-análises anteriores. As análises da vida útil sugerem que, na ausência de estudos longitudinais bem alimentados, a amostra transversal ENIGMA em seis décadas de idades fornece um meio para gerar hipóteses sobre trajetórias de vida nos fenótipos cerebrais.
FINANCIAMENTO:
Instituto Nacional de Saúde.
Copyright © 2017 Elsevier Ltd. Todos os direitos reservados.

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28219628
PubMed.gov

Abstract

BACKGROUND:

Neuroimaging studies have shown structural alterations in several brain regions in children and adults with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). Through the formation of the international ENIGMA ADHD Working Group, we aimed to address weaknesses of previous imaging studies and meta-analyses, namely inadequate sample size and methodological heterogeneity. We aimed to investigate whether there are structural differences in children and adults with ADHD compared with those without this diagnosis.

METHODS:

In this cross-sectional mega-analysis, we used the data from the international ENIGMA Working Group collaboration, which in the present analysis was frozen at Feb 8, 2015. Individual sites analysed structural T1-weighted MRI brain scans with harmonised protocols of individuals with ADHD compared with those who do not have this diagnosis. Our primary outcome was to assess case-control differences in subcortical structures and intracranial volume through pooling of all individual data from all cohorts in this collaboration. For this analysis, p values were significant at the false discovery rate corrected threshold of p=0·0156.

FINDINGS:

Our sample comprised 1713 participants with ADHD and 1529 controls from 23 sites with a median age of 14 years (range 4-63 years). The volumes of the accumbens (Cohen's d=-0·15), amygdala (d=-0·19), caudate (d=-0·11), hippocampus (d=-0·11), putamen (d=-0·14), and intracranial volume (d=-0·10) were smaller in individuals with ADHD compared with controls in the mega-analysis. There was no difference in volume size in the pallidum (p=0·95) and thalamus (p=0·39) between people with ADHD and controls. Exploratory lifespan modelling suggested a delay of maturation and a delay of degeneration, as effect sizes were highest in most subgroups of children (<15 adults="" versus="" years="">21 years): in the accumbens (Cohen's d=-0·19 vs -0·10), amygdala (d=-0·18 vs -0·14), caudate (d=-0·13 vs -0·07), hippocampus (d=-0·12 vs -0·06), putamen (d=-0·18 vs -0·08), and intracranial volume (d=-0·14 vs 0·01). There was no difference between children and adults for the pallidum (p=0·79) or thalamus (p=0·89). Case-control differences in adults were non-significant (all p>0·03). Psychostimulant medication use (all p>0·15) or symptom scores (all p>0·02) did not influence results, nor did the presence of comorbid psychiatric disorders (all p>0·5).

INTERPRETATION:

With the largest dataset to date, we add new knowledge about bilateral amygdala, accumbens, and hippocampus reductions in ADHD. We extend the brain maturation delay theory for ADHD to include subcortical structures and refute medication effects on brain volume suggested by earlier meta-analyses. Lifespan analyses suggest that, in the absence of well powered longitudinal studies, the ENIGMA cross-sectional sample across six decades of ages provides a means to generate hypotheses about lifespan trajectories in brain phenotypes.

FUNDING:

National Institutes of Health.
http://tdah.org.br/br/artigos/textos/item/1179-maior-estudo-j%C3%A1-realizado-no-mundo-revela-novas-altera%C3%A7%C3%B5es-cerebrais-no-transtorno-do-d%C3%A9ficit-de-aten%C3%A7%C3%A3o.html


Lembrando, porém:

Mas a realidade é: NADA ESTÁ CONCLUSO, exceto nossa NECESSIDADE E COMPROMISSO EM AMAR NOSSOS PEQUENOS, acolhendo-os e realizando da melhor forma a adequação de metodologias escolares, a promoção de ambientes não hostis, onde eles possam se sentir à vontade, aceitos e queridos! Isto é Saúde! 




O sofrimento psíquico existe, sim, pois, quem gosta de ser constantemente observado e criticado? Cabe ao mundo adulto efetuar a promoção de um ambiente mais condigno com a natureza sensível destes amados.

"Mesmo nos casos diagnosticados, em mais de 80% dos casos, não é preciso medicação! Apenas mudança na forma de tratar e terapia psicológica".
(Dr. Sérgio Barbirato - RJ)




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 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 

http://tdahcriancasquedesafiam.blogspot.com.br/

Para adquirir e obter mais informações, veja no blog  (AQUI) ou encaminhe e-mail para:
marisejalowitzki@gmail.com  



quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Final de Ano Letivo e agora vem o diagnóstico de TDAH e Dislexia?



diagnósticos e intervenções diferentes só confundem ainda mais os pais




Por Marise Jalowitzki
20.novembro.2014
http://compromissoconsciente.blogspot.com.br/2014/11/final-de-ano-letivo-e-agora-vem-o.html

Uma mãe confusa escreve sobre seu filhote de 12 anos, 7ª série.

A escola somente agora, às vésperas de terminar o ano letivo, anuncia que o garoto vai ser reprovado.

"Estou com uma dúvida, queria saber se pode me instruir. Meu filho desde o inicio do ano deu trabalho (falta de concentração) na escola e o mais triste é saber que ele está quase reprovado e só me falaram agora.
Desde então eu mesma resolvi e procurei a escola e pedi pra ele passar pela psicóloga de lá. Dai ela me falou que não tinha nada, pois tinha noção sobre tudo, família por exemplo, mas se eu quisesse fazer um acompanhamento com uma psicopedagoga seria muito bom pra ele, para ajudar no aprendizado que não estava bem; sempre informo que a minha preocupação maior não é tanto em casa e sim na escola. Com essas sessões com a psicopedagoga, primeiro ela falou logo que ele era dislexo, em relação ao comportamento que ela observou nele; dai me encaminhou a um neurologista, que pediu exames como eletro e tomografia de crânio, enfim já começou a tomar a ritalina. Aguardo o retorno,,,abraços"

Tens de pleitear na escola, sim! Não sei como transcorreu todo o ano, como é o sistema de avaliação, se houve reuniões de pais e mestres, se foste nestas reuniões, o que te disseram, etc. - porque, claro, esta é uma situação que se constrói ao longo dos meses e a escola tem a responsabilidade de chamar os pais para conversar sobre os alunos que estão começando a entrar na faixa de alerta, também em questões de comportamento.

A mãe, na tentativa de ele não ser reprovado por insuficiência de notas, buscou aconselhamentos e intervenções junto à orientadora, neuropsicopedagoga, neurologista e tudo o  mais.

A mãe notou que ele ficou ainda mais disperso. Pede sugestão sobre o que fazer.


O que respondi:

Querida Mãe!
Minhas falas são sempre em cima do que conheço por ter vivido (na pele, algumas coisas; na família, outras tantas e saber nos outros) e também sobre o que defendo e sinto!!

Este Grupo (assim como o Livro e o Blog) nasceu em função do excesso de diagnósticos apressados, da medicação "quase instantânea" e da pressa em querer resolver "já" as questões da vida de uma criança, seja esta pressa dos pais, dos professores ou até do próprio especialista ou orientador.

Se teu pimpolho está na 7ª série, com 12 anos, significa que ele entrou aos 6 anos, nunca reprovou! Já passou aquela fase difícil da alfabetização. Pode estar tendo uma dificuldade temporária.

Dizes que o comportamento de dispersão anunciado acontecia somente na escola (desde o início de ano) e não te comentaram nada. Agora, começas a notar que ele está distraindo na hora de realizar os temas de casa.

Já perguntaste a teu menino o que está diferente na vidinha dele? Talvez ele não saiba te responder, mas pode ser tanta coisa! Ele está entrando na puberdade, uma explosão de até 800% de testosterona, situação que nem ele sabe lidar direito. É tudo muito novo! Pode ter até uma gatinha no meio da história. Tanta coisa!

- Pode ser que ele não esteja mesmo conseguindo acompanhar os conteúdos, seja por questão de entendimento ou de chateação com a "chatice" do processo ensino-aprendizagem.
- Podem ser alguns professores com quem ele antipatize.
- Podem ser incompatibilidades com alguns colegas!

Nosso início de diálogo foi sobre a possibilidade de reprovar.
Volto a dizer que terias de conseguir uma acordo com a escola para que ele entrasse em recuperação, reforço, mas não reprovar, já que não te avisaram durante todo o ano.

Com relação aos pareceres médicos (dislexia, tdah, sim ou não) deves estar bem confusa mesmo, já que os especialistas apontam transtornos-doenças diferentes, outro diz que não tem e os exames não apontam nada!

Com relação à ritalina (espero, pelo menos, que seja 10mg), vai monitorando. Ele pode se adaptar, como também pode ficar pior.
É importante lembrar que ritalina, em alguns casos (não todos), faz focar, faz concentrar mais, e por 4 ou 8 horas (dependendo da dosagem).
Se o teu menino está mais disperso ainda, é mais um indicativo de que a medicação é indevida.

Se leste o propósito deste Grupo, sabes que defendo o uso de psicotrópicos em crianças tão somente em casos graves. Tu que tens teu filhote em casa é que podes dizer se o caso dele é efetivamente grave. Todas as indicações apontam que as "anormalidades" devem acontecer em três ambientes: escola, casa e comunidade. Também não parece ser o caso de teu menino.



Quando li, há pouco tempo, quantos especialistas (especialmente internacionais, mas também alguns brasileiros) recomendam que se dê psicotrópicos somente a indivíduos que tenham o cérebro já desenvolvido - e isto só acontece dos 20 aos 30 anos-, mais cuidados ainda tenho em relação aos tarja-preta.

Nos exames que comentaste não vi a menção de ECG (eletrocardiograma) que é apontado como bem importante, pois o farmaco em questão (metilfenidato, ritalina, ritalina la e concerta) pode ocasionar crescimento anormal do coração (podes ver os artigos que publiquei especificamente sobre isso, pareceres e alertas de psiquiatras e neurologistas como, por exemplo, Dr. Fred Baughman, Dr. Allen Frances e outros).

De qualquer maneira, o ano letivo está terminando. As indicações acenam que muitos especialistas receitam a ritalina para o período escolar, com recomendação de pausar nas férias. Como notas que em casa tudo ok, que a reclamação advem da escola, tens tempo para observar mais, ler mais, te informar mais e procurar ouvir outros pareceres abalizados.

Em relação ao convívio familiar, lembra que uma boa conversa, muito carinho, apostar em teu menino, tentar ser o mais possível uma companheira dele, uma mãe-amiga, vai ajudar bastante.

Serena, sei que para um coração de mãe é bem dolorido um filho reprovar, perder os colegas de turma, repetir todo um ano... tenta o acordo, agora, caso acontecer de ele reprovar, procura não "cair de pau" em cima de teu filho, nem culpar a escola por tudo, especialmente na frente dele, pois isto vai deixá-lo confuso em relação a papéis sociais e ele pode ocupar esse fato como escape para problemas futuros.

Por vezes achamos que é tão horrível perder um ano. Pode ser apenas um reforço.

Beijos, querida, fico torcendo pelo melhor, sempre! Luz!
Marise Jalowitzki


Mais sobre o tema, nestes blogs:



 Marise Jalowitzki é educadora, escritora, blogueira e colunista. Palestrante Internacional, certificada pelo IFTDO - Institute of Federations of Training and Development, com sede na Virginia-USA. Especialista em Gestão de Recursos Humanos pela Fundação Getúlio Vargas. Criou e coordenou cursos de Formação de Facilitadores - níveis fundamental e master. Coordenou oficinas em congressos, eventos de desenvolvimento humano em instituições nacionais e internacionais, escolas, empresas, grupos de apoio, instituições hospitalares e religiosas por mais de duas décadas Autora de diversos livros, todos voltados ao desenvolvimento humano saudável. marisejalowitzki@gmail.com 

Livro: TDAH Crianças que desafiam 

Como Lidar com o Déficit de Atenção e a Hiperatividade na Escola e na Família
Contra o uso indiscriminado de metilfenidato - Ritalina, Ritalina LA, Concerta



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Allen Frances, psiquiatra e escritor, acusa -Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais


Catedrático emérito da Universidade de Duke, Allen Frances é um ferrenho crítico às revisões feitas no DSM-V - a "Bíblia da Psiquiatria" que, segundo ele, medicaliza a normalidade. Autor dos livros: Salvando o Normal e Normal - Contra a Inflação de Diagnósticos Psiquiátricos.

Allen Frances, psiquiatra e escritor, acusa -Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais

Por Marise Jalowitzki
01.outubro.2014
http://compromissoconsciente.blogspot.com.br/2014/10/allen-frances-psiquiatra-e-escritor.html


Ele não é o único! Há todo um movimento criado no mundo, encabeçado principalmente por psiquiatras eméritos que se posicionam contrários ao enorme fluxo de diagnósticos nesta área, além de Comissões Nacionais (como a Comissão de Bioética Médica da Suíça) e Associações de cidadãos que sofreram abusos psiquiátricos ou que tiveram parentes vítimas de tratamentos indevidos e abusivos.

No Brasil, a ANVISA recomenda responsabilidade aos especialistas.

A publicação e venda do DSM, com direitos autorais fortemente vigiados, rende para a APA - Associação Psiquiátrica Americana, mais de US$ 100 milhões de dólares/ano.


PARTICIPE DA CAMPANHA "DIGA NÃO AO SIM (Síndrome de Indução Medicalizante)! Chega de medicalização! - Marise Jalowitzki - Livro TDAH Crianças que Desafiam


transcrito de El País:

Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.
P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.
P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.
P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.
P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.
P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.
P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.
P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.
P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.
P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos.

El País

http://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/26/sociedad/1411730295_336861.html

http://psibr.com.br/noticias/ex-coordenador-do-dsm-sobre-a-biblia-da-psiquiatria-transformamos-problemas-cotidianos-em-transtornos-mentais


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