terça-feira, 2 de maio de 2017

O que aconteceu a Belchior

Em 2011 ele estava trabalhando, rodeado de amigos, no Uruguai. Como assim, "fugitivo"?  -  enquanto houver espaço, corpo, tempo e algum modo de dizer "Não", eu canto!!

A sensibilidade faz cansar da mesmice de um mundo insano. E como fugir desta teia sem romper com os ditames tão impostos???

O amigo, em Santa Cruz do Sul, quando o corpo estava saindo da casa, gritou pertinente uma saudação certeira: "Que a terra te seja leve, tu, que pisaste tão pouco nela!" Que os vôos deste poeta cantador, músico e pintor estejam sendo plenos e felizes! Saudades!


Por Marise Jalowitzki
Publicado em 02.maio.2017
Atualização: Inserção de materia sobre o Centro Cultural Belchior em 18.maio.2017
http://compromissoconsciente.blogspot.com.br/2017/05/o-que-aconteceu-belchior.html

Ainda chocada com a notícia de sua morte, sozinho, tendo a aorta estourada naturalmente, a partida de Belchior reacende o misterio que rondou os últimos 10 anos de sua vida.

Assisti aos videos de sua partida, as homenagens dos fãs, tanto em Sobral como em Fortaleza e no Brasil inteiro.

Desde sempre o admirei MUITO. Tinha suas gravações (desde a época das fitas cassette. Eu e a filha, à época uma menina, assistimos a um show dele na OSPA. Suas letras nortearam muito de minha vida.

Há pouco fui tentar encontrar mais informações sobre o que teria levado o querido cantor, compositor e artista plástico Belchior a esta reclusão absurda. Há vários anos houve todo aquele movimento "Volta Belchior" e uma estranha 'reportagem' com notícias contraditorias.

Belchior e sua atual esposa passaram também por Porto Alegre e ficou aquela sensação de 'coisa obscura', mas, acima de tudo, o direito de escolha,

A esposa Edna (que conheceu em 2006 e que foi o estopim de toda esta sua mudança - sim, estopim, pois já devia estar cansado há mais tempo!) - Edna Prometheus - é tida como uma militante de ultra esquerda. Muitas especulações. Até mesmo intrigas avassaladoras. Desverdades. O que estaria por detrás de todas estas atitudes tidas como estranhas? Somente uma grande vontade de mudar de vida, de sair deste mundão público? Será que Belchior, compondo muito, pintando muito, pensou em deixar um legado (também financeiro) para suprir as cobranças de que foi alvo, inclusive de pensão alimentícia para filhos maiores... requisitada insistentemente pela primeira esposa?

Em 2011 ele estava trabalhando, rodeado de amigos, no Uruguai. Como assim, "fugitivo"?
Vejam este video:
Belchior, em 2011, no Uruguai - Voz magnífica! e-m-o-c-i-o-n-a-n-t-e!! Muitas, muitas saudades! Legado! https://www.youtube.com/watch?v=96Ke5TPILF0



Última gravação conhecida do Belchior, já no seu auto-exílio.
Gravado em parceria com o músico João Tavares Filho, visando um projeto futuro que não foi lançado.

"Na primavera de 2011 tive o prazer de conhecer Belchior, que presenciou um concerto meu em Quaraí - RS. Belchior me convidou para fazermos algo juntos e surgiu, então, o registro “Ondas Sonoras - Primeiro Movimento” que visava um futuro projeto.
A gravação foi realizada por Paulo Coser - Projesom em 7 de Setembro de 2011, no Centro Cultural do Consulado do Brasil em Artigas - Uruguay, com o apoio da Casa de Arte e Cultura Belchior.
Muito me marcou a sabedoria, cultura e simplicidade desse grande artista que hoje partiu.
Deixo aqui a minha homenagem, com um eterno agradecimento aos seus ensinamentos. " (postagem em 02.mio.2017)



Sim, a tristeza ficou ainda mais forte, depois de conhecer a publicação da Revista Época, dando-o como "fugitivo"... Transcrevo o texto mais adiante, em dois artigos de sites diversos.

Sim, a vida pode dar uma volta-sem-volta quando escolhemos pessoas e situações que, inicialmente, nos acessam com liberdade e, por fim, acabam levando a ações e decisões que só fazem enrrascar aindamais com as vidas. Pois este parece ter sido o caso. Algumas pessoas já 'diagnosticam' como esquizofrenia...ah! mundão! quem já passou por situações de MUITO cansaço da vida que se está levando sabe que as coisas não são tão simples assim. Ameaças de prisão por falta de pagamento de pensão alimentícia, um processo no valor de um milhão como dívida parecem ser razão suficiente para enfraquecer...ainda mais nesta idade... fazer shows para levantar dinheiro que outros requerem, quando a única vontade é ensimesmar-se?... ainda mais quando a primeira família ainda cobra tanto...

A cada saída de hotel ele deixava o laptop, ou suas roupas, ou suas composições inéditas, suas telas... até o trabalho literário - Divina Comédia em linguagem mais cotidiana - a que se dedicou durante 3 anos ele deixou em um dos notes... como a dizer: este é o pagamento que posso deixar. Vendam, usem... ninguém entendeu. Enfim, jornada encerrada! Que bom que houve amigos que o acolheram e ele pôde viver - ainda que tão recluso - seus últimos dias na terra sem as cobranças e pressões.

A devassa que a rede globo - revista época - fizeram em sua vida, como se efetivamente fosse um criminoso, foi aviltante. E ainda queriam que ele fosse dar shows, depois de toda esta lamúria? Provavelmente era isso que queria denunciar quando pediu uma entrevista com a Rede Record..mas ninguém peitou a rede...

Que seja tudo mais ameno doravante! Não valemos pelo dinheiro que rendemos. Valemos pelo que de reflexão deixamos.

Qualquer que seja a resposta, NADA invalida toda a sua linda trajetoria. Legado inestimável.

Dívidas que se acumulam podem, sim, pirar a cabeça de qualquer um. Mas ele estava lúcido até o final, dizem os amigos. Apenas se sentia impotente. E, então, se abstinha do mundo que o cobrava... compunha e pintava. Dizem que não cantava mais.
O coração não aguentou.

DESCANSA EM PAZ, meu amigo!

Aos amigos que gentilmente o acolheram, aos amigos que cederam espaços bonitos para que ele pudesse viver os últimos dias de sua vida, o reconhecimento desta fã.

Linda, linda música, como todas as suas composições. Esteve tão perto de minha casa nos últimos 4 anos! Que encontre a Paz!






Saia do Meu Caminho
https://www.youtube.com/watch?v=gGV1yyDMGSM



Para osa fatos que motivaram sua reclusão, deixo a leitura encontrada no Militância Viva e, depois, praticamente o mesmo texto no Naco de Prosa (links ao final), quando procurei por Edna Prometheus - originalmente publicado pela Revista Época:

VIROU FUGITIVO: SE ESCONDE HOJE O GRANDE EX-CANTOR BELCHIOR


A divina tragédia de Belchior




por Marcelo Bortoloti - Revista Época

Capítulo 1
 
“No trevo, a 100 por hora”
 
Edna Prometheu é o pseudônimo da produtora cultural Edna Assunção de Araújo, de 46 anos. Morena, de cabelos encaracolados e baixa estatura, não é uma mulher de beleza estonteante. Militante de organizações de extrema-esquerda, é definida por seus amigos como “idealista utópica”. No começo de 2005, ela estava em São Paulo, no ateliê do artista plástico cearense Aldemir Martins, já morto, quando entrou pela porta o músico Belchior. O cantor de “Paralelas” também pinta quadros e frequenta o ambiente artístico. Edna queria organizar uma exposição de Aldemir no Ceará. Belchior disse que tinha amigos por lá, poderia ajudar. Trocaram telefones.

Os dois acabaram organizando juntos a exposição em Fortaleza, naquele mesmo ano. Na volta, Edna ligou para um amigo e contou a novidade: “Estamos namorando”. A partir daí, a vida plácida de Belchior derrapou no trevo a 100 por hora, como diz a letra de “Paralelas”. Para ficar com Edna, ele abandonou a então mulher, Ângela, com quem estava casado havia 35 anos, mãe de dois dos quatro filhos que tem. Afastou-se dos amigos e foi gradativamente deixando de fazer shows, até sumir sem dar explicações, em 2009. “Essa figura nefasta está fazendo uma lavagem cerebral nele”, afirma Jackson Martins, ex-empresário de Belchior. “Depois dela, sua vida só andou para trás”, diz o artista plástico cearense Tota, amigo de Belchior.
O desaparecimento de Belchior, há cinco anos, surpreendeu a todos, família e amigos. Ninguém poderia esperar tal atitude. Ele deixou para trás a agenda de shows e todo o patrimônio, incluindo roupas, documentos, quadros, automóveis e apartamento. O sumiço transformou Belchior em figura cult. A pergunta “onde está Belchior?” ecoou na internet e teve até repercussão internacional. Surgiram blogs sobre o tema. Campanhas nas redes sociais pediram a volta do músico. E apareceram montagens cômicas – “memes” – em que Belchior aparece em locais inusitados como a ilha do seriado Lost. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5 mil acessos diários, hoje batem 500 mil.

O sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belchior de carne e osso. Aos 67 anos, ele vive escondido com Edna em Porto Alegre. Não pode sair em público, pois é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias. Uma devida à ex-mulher Ângela, com quem tem dois filhos já maiores de idade, e outra à mãe de uma filha de 19 anos que teve fora do casamento. Além das pensões, Belchior abandonou todos os demais compromissos e é cobrado na Justiça em processos que correm à revelia. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia.

O mais intrigante na espantosa história de Belchior é que ele aparentemente não agiu movido por depressão, dívidas ou golpe publicitário, como se pensou no princípio. A influência da mulher é apontada pela maioria dos amigos como o motivo do seu comportamento. Ainda assim, não há unanimidade. “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz o artista plástico José Roberto Aguilar, de 72 anos, amigo do casal.


O desaparecimento de Belchior, há cinco anos, surpreendeu a todos, família e amigos. Ninguém poderia esperar tal atitude. Ele deixou para trás a agenda de shows e todo o patrimônio, incluindo roupas, documentos, quadros, automóveis e apartamento. O sumiço transformou Belchior em figura cult. A pergunta “onde está Belchior?” ecoou na internet e teve até repercussão internacional. Surgiram blogs sobre o tema. Campanhas nas redes sociais pediram a volta do músico. E apareceram montagens cômicas – “memes” – em que Belchior aparece em locais inusitados como a ilha do seriado Lost. Suas músicas no YouTube, que antes tinham 5 mil acessos diários, hoje batem 500 mil.





O sucesso no mundo virtual não trouxe nenhum benefício para o Belchior de carne e osso. Aos 67 anos, ele vive escondido com Edna em Porto Alegre. Não pode sair em público, pois é procurado pela polícia. Pesam contra Belchior dois mandados de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias. Uma devida à ex-mulher Ângela, com quem tem dois filhos já maiores de idade, e outra à mãe de uma filha de 19 anos que teve fora do casamento. Além das pensões, Belchior abandonou todos os demais compromissos e é cobrado na Justiça em processos que correm à revelia. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas, e os imóveis que tinha comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia.

 O mais intrigante na espantosa história de Belchior é que ele aparentemente não agiu movido por depressão, dívidas ou golpe publicitário, como se pensou no princípio. A influência da mulher é apontada pela maioria dos amigos como o motivo do seu comportamento. Ainda assim, não há unanimidade. “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”, diz o artista plástico José Roberto Aguilar, de 72 anos, amigo do casal.
Belchior nasceu numa família simples no interior do Ceará. Foi o mais bem-sucedido entre 23 irmãos. Estudou medicina na capital. Abandonou o curso depois de quatro anos, para ingressar na carreira artística. Estourou nos festivais na década de 1970 e compôs músicas com letras poderosas, como “A palo seco”. Seus sucessos foram gravados por Elis Regina, Jair Rodrigues e Roberto Carlos. Belchior é um artista com vasta cultura, domina cinco idiomas, conhece filosofia e gosta de física quântica. Até os anos 2000, lançava em média um disco por ano. “Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite. Era uma pessoa completamente dedicada à carreira”, diz o parceiro e ex-sócio Jorge Mello.
Tudo isso ficou para trás. O sumiço de Belchior lembra o caso do escritor russo Liev Tolstói. Aos 82 anos, ele abandonou tudo para viver como camponês. Tolstói teve um fim trágico – morreu de pneumonia depois de viajar na terceira classe de um trem durante o inverno soviético. Belchior, quanto mais se afasta da vida em sociedade, mais se afunda em dificuldades mundanas. 


Capítulo 2
“Onde nada é eterno”
Depois que conheceu Edna, Belchior percorreu uma trajetória descendente em que, aos poucos, se despojou de todos os bens e obrigações. No final de 2006, ainda com a carreira aquecida, pediu que o empresário Jackson Martins parasse de agendar novos shows. Pretendia passar um tempo se dedicando à pintura e à tradução do poema Divina comédia, de Dante Alighieri, para uma linguagem popular. No início do ano seguinte, deixou o apartamento em que vivia com Ângela, mas continuou morando em São Paulo com Edna, num flat alugado. Desde então, a família diz não ter mais notícias dele. Belchior não era um marido muito presente, ficava até dois meses sem aparecer em casa. Teve duas filhas fora do casamento. Uma delas com uma fã que morava em São Carlos, no interior de São Paulo, com quem saiu uma única vez. A outra era fruto de um caso com uma estudante de psicologia no Ceará. Belchior pagava pensão alimentícia para a primeira. A família da segunda menina, hoje com 16 anos, não o acionou na Justiça.

As complicações começaram a aparecer em 2008. Ângela cobrava na Justiça uma pensão mensal de R$ 7 mil. Belchior se recusou a pagar. Na época, deixou de pagar também a outra pensão. Seus amigos notaram uma diferença de comportamento. “Ele parecia estranho. Me ligou perguntando sobre amigos que não vemos há 30 anos, num tom de voz que não era o seu”, diz Jorge Mello. Em outubro daquele ano, abandonou um carro no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Belchior continuou em São Paulo até março de 2009, quando deixou o flat sem quitar os últimos meses de aluguel. Na garagem, ele largou um segundo carro, e em seu apartamento ficaram roupas, rascunhos de música, cartões de crédito e o passaporte. Belchior também abandonou tudo na casa alugada onde funcionava seu escritório: coleção de quadros, discos, documentos e o computador onde estava parte da tradução da Divina comédia, projeto que lhe consumira três anos. Seu secretário, Célio Silva, continuou abrindo o escritório, na esperança de que retornasse.




Belchior viajara com Edna para o Uruguai, onde descansava num vilarejo. Foi processado por Célio e por todos os credores que ficaram em São Paulo. Não se defendeu. Foi representado por defensores públicos até nos processos de pensão alimentícia. Como consequência, suas contas foram bloqueadas, e apareceram dois mandados de prisão contra ele, já que não pagar pensão é um crime passível de cadeia. “Como não tive contato com ele, a defesa ficou restrita a questões formais”, diz a defensora Claudia Tannuri, escolhida para defendê-lo no processo movido pela ex-mulher Ângela. Belchior nem sequer se importou com o destino de seus pertences. As roupas que estavam no flat foram doadas à caridade. A filha mais velha recolheu os documentos. Os carros foram levados para depósitos públicos. A dívida com os estacionamentos já ultrapassava seu valor. O proprietário do imóvel onde funcionava o escritório lacrou o lugar e recolheu os pertences. Seus quadros se perderam com a umidade.
Como na música “Divina comédia humana”, “em que nada é eterno”, Belchior e Edna perambularam durante todo esse período de hotel em hotel – várias vezes, sem pagar a conta. Amigos culpam Edna pela iniciativa. O primeiro hotel em que isso aconteceu foi o Gran Marquise, em Fortaleza. Os dois ficaram hospedados ali ainda em 2006. Saíram sem pagar dois meses de estadia, no valor de R$ 8 mil. Depois, repetiram a prática em pelo menos quatro locais. No Icaraí Praia Hotel, em Niterói, deixaram uma conta de R$ 4 mil. “Alguns funcionários tiveram de arcar com parte da dívida, já que permitiram que ele ficasse hospedado mais de uma semana sem pagar a conta”, diz o atual gerente, Germano Lopes. No Royal Jardins Boutique, em São Paulo, a conta pendurada foi de R$ 12 mil. “Eles deixaram um cheque caução, mas não tinha fundos”, diz Elly Shimasaki, gerente na ocasião.

O caso mais recente foi no hotel Cassino, na cidade de Artigas, no Uruguai, onde o casal se hospedou entre julho de 2011 e novembro de 2012. Os últimos meses ficaram sem pagamento, restando uma dívida de R$ 35 mil. Lá, Belchior deixou para trás roupas e um laptop. 
“É uma lástima que um artista brasileiro dessa importância tenha agido assim”, diz o gerente uruguaio Ricardo Rodrigues. O hotel entrou com uma queixa criminal contra o casal.


Capítulo 3
“Sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco”

 
Nos últimos anos, Belchior se manteve à distância de qualquer atividade remunerada. Em 2009, quando o desaparecimento ganhou repercussão nacional, a montadora General Motors ofereceu um cachê milionário para ele aparecer num comercial. Belchior deveria dizer que, com o novo carro da GM, até ele voltava. Belchior recusou o convite e ficou bastante chateado com o teor da proposta. O empresário Jackson Martins diz que recebe constantes pedidos para shows, mas não consegue localizá-lo desde 2007. “Pago as dívidas dele se ele voltar”, diz. Outro empresário que trabalhou com Belchior por quase 30 anos, Hélio Rodrigues, diz que o desaparecimento fez aumentar o interesse do público. “Depois do escândalo, ele consegue lotar qualquer casa de espetáculo. Com dois shows em São Paulo, eliminaria as dívidas”, diz.
 
Hoje, a maior pendência de Belchior é o processo trabalhista ganho pelo secretário Célio, no valor de R$ 1 milhão. A causa está julgada. Um apartamento de propriedade do músico em São Paulo está em execução. A dívida da pensão para a ex-mulher Ângela soma cerca de R$ 300 mil. Mas cresce a cada dia, já que Belchior continua obrigado a pagar R$ 7 mil por mês. “O sumiço só agravou a situação dele. Se não tem dinheiro, deveria enfrentar juridicamente o processo, argumentando que não pode pagar”, diz Paulo Sato, advogado de Ângela. A pensão atrasada da filha que mora em São Carlos gira em torno de R$ 90 mil. As dívidas com hotéis cobradas na Justiça somam R$ 47 mil. Não são impagáveis, desde que Belchior volte a se apresentar.
A derradeira fonte de renda de Belchior eram os direitos autorais de suas músicas. Segundo o Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), nos últimos cinco anos foram depositados R$ 367 mil referentes à execução pública de suas obras. Parte do dinheiro ficou retida quando as contas bancárias foram bloqueadas. Desde então, Belchior não contou com nenhum outro tipo de renda.


Capítulo 4
“Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho”

Em janeiro deste ano, Edna e Belchior procuraram a Defensoria Pública em Porto Alegre. A história ganhou ingredientes ainda mais estranhos. Os dois alegavam que o bloqueio das contas e os mandados de prisão impediam que ele trabalhasse e voltasse a ganhar dinheiro para pagar as dívidas. Belchior aparentemente estava disposto a voltar. Mas o comportamento do casal era confuso. Edna falava desbragadamente, enquanto Belchior ficava quase sempre calado. “Durante um mês, me informei sobre os processos que tramitam em São Paulo. Fizemos um pedido judicial para a suspensão da execução, até que ele conseguisse se restabelecer. Nesse meio-tempo, Belchior sumiu”, diz a defensora pública Luciana Kern, que o atendeu.

Nesse mesmo período, Edna ligou para o jornalista gaúcho Juremir Machado, que não conhecia. Disse que Belchior estava escondido na cidade e precisava de ajuda. Ela queria que Juremir os levasse à sede regional da TV Record para fazer uma denúncia delirante. Juremir notou algo de incomum no casal. Eles se escondiam atrás de pilastras e ficavam olhando a movimentação nas ruas antes de entrar em algum lugar, como se fossem seguidos. Na retransmissora da TV, Edna afirmou ter um dossiê contra a TV Globo. O programa Fantástico noticiara o desaparecimento de Belchior em 2009 e a fuga do hotel uruguaio, em 2012. “Ela dizia que Belchior era difamado pela Globo e queria justiça. Falou até que havia uma tentativa de matá-lo”, diz a jornalista Vânia Lain, que recebeu os dois. Eles disseram que voltariam na semana seguinte trazendo os documentos, mas desapareceram.

https://www.youtube.com/watch?v=ltCHLhtGOZ4



Em Porto Alegre, Belchior e Edna ficaram inicialmente hospedados num hotel simples no centro, pago com ajuda dos funcionários do Tribunal de Justiça, primeira porta em que o casal bateu quando chegou à capital gaúcha. Depois, foram abrigados no Centro Infantojuvenil Luiz Itamar, instituição de caridade na região metropolitana. Dali, foram levados ao advogado Aramis Nacif, ex-desembargador do Estado, que poderia ajudar Belchior com os processos. “Ele dizia que um agente apareceria, mas nunca apareceu”, diz Nacif. Durante um mês, o casal ficou abrigado na casa de praia do filho dele. “Eles não tinham dinheiro algum. Edna apresentava um sentimento de perseguição muito grande, parecia ter algum distúrbio psicológico”, diz. Foi nesse momento que Belchior conheceu o advogado Jorge Cabral, na casa de quem se hospedou por quatro meses.
Cabral tomou um susto ao perceber que um músico importante como Belchior estava ali. E os convidou para ir a um sítio de sua propriedade, em Guaíba, local mais agradável. Belchior e Edna continuavam sem dinheiro. Nesse período, o advogado levou mantimentos, roupas, itens de higiene pessoal e até tintura para Belchior pintar os bigodes de preto.

No sítio de Cabral, Belchior não bebia nem comia carne vermelha. Passava os dias tomando chá, caminhando e cuidando das ovelhas. Fazia muitas anotações em papéis, que escondia numa pasta. Durante esse período, gastou duas canetas inteiras. Leu cerca de 40 livros. Não apresentava sinais de depressão. Parecia, segundo Cabral, alheio aos problemas que o cercavam. “Eu imaginava que ele era apenas um compositor nordestino, mas encontrei um artista plástico, um pensador, um filósofo”, diz Cabral. Ele pretende escrever um livro sobre a experiência.




Belchior só não gostava de falar sobre sua situação. Recusava-se a tocar violão e cantar. Edna impedia que ele fosse fotografado. O casal também não tomava nenhuma providência para resolver os problemas jurídicos. “A gente esperava que a situação se resolvesse, mas não acontecia nada. E aquilo não condizia com um homem lúcido, com memória fantástica, que fala várias línguas e tem uma quantidade enorme de músicas gravadas”, diz Jorge Cabral.
“Esse tempo que ele falou que daria na carreira já está longo demais. Só queremos notícias dele”, diz a irmã, Ângela Belchior. Belchior não apareceu nem no enterro da mãe, que morreu em 2011. Por telefone, a ex-mulher Ângela soa reticente. Não gosta de falar sobre um assunto tão delicado com a imprensa. Ela conta que, desde 2007, Belchior não entra em contato nem com os filhos. “Não entendo. Os empresários dele não entendem”, diz.

Em julho deste ano, Cabral pediu que o casal saísse, dado que Belchior e Edna não davam sinal de acabar com aquela situação de total dependência. Ele os deixou na porta da sede regional da União Brasileira de Compositores, com R$ 50 no bolso. Na União, Belchior tentou desbloquear o pagamento de seus direitos autorais, comprometido pelos processos na Justiça. Não conseguiu.
Belchior foi visto pela última vez na entrada do prédio, um edifício moderno num bairro de classe média de Porto Alegre, em frente a uma avenida bastante movimentada. Carregava uma pequena mala nas mãos e material de pintura debaixo do braço. Belchior – na belíssima letra de “Comentário a respeito de John”, ele cantava “eu prefiro andar sozinho” – estava, como sempre, ao lado de Edna. 

em 02.janeiro.2014
http://militanciaviva.blogspot.com.br/2014/01/virou-fugitivo-se-esconde-hoje-o-grande.html


O que terá acontecido a Belchior?

Ele nasceu em Sobral, no Ceará. Seu nome: Antônio Carlos Belchior Fontenelle Fernandes, ou apenas Belchior.
Aos 67 anos, após inúmeros sucessos musicais, Belchior mantém um enigma à sua volta.


Tudo começou em 2005, quando o artista conheceu Edna Assunção de Araújo, produtora cultural e militante de organizações de extrema-esquerda.
Eles se apaixonaram, iniciaram um namoro e Belchior terminou seu casamento de 35 anos com Ângela, mãe dos dois dos quatro filhos que o cantor tem.
Afastou-se dos amigos, deixou de fazer shows e, em 2009, desapareceu sem deixar rastros.
Nem os amigos mais próximos esperavam tal atitude. Ele abriu mão de todo seu patrimônio ( quadros, roupas, documentos, carros, apartamentos ), além da agenda de shows. O sumiço transformou Belchior em uma figura “cult”. A pergunta “Onde está Belchior?” ecoou na internet e teve repercussão internacional. Campanhas pedindo a volta do músico. Suas músicas que antes tinham cerca de cinco mil acessos, hoje ultrapassam 500 mil.  

Mas o sucesso virtual não trouxe nenhum benefício material ao cantor. Ele vive escondido em Porto Alegre com Edna, escondendo-se da polícia. Contra ele há dois mandatos de prisão pelo não pagamento de pensões alimentícias.

Além disso, Belchior abandonou todos os seus compromissos e não paga mais aos seus credores. O ex-secretário particular de Belchior, Célio Silva, ganhou um processo trabalhista contra ele no valor de R$ 1 milhão. Não há mais como recorrer. As contas de Belchior estão bloqueadas e os imóveis que tinha foram comprometidos. Sem dinheiro, ele já se abrigou numa instituição de caridade no Rio Grande do Sul e morou de favor na casa de fãs que nem conhecia.

O que intriga a todos, é que o cantor, aparentemente, não agiu movido por depressão, dívidas ou golpes publicitários, como todos acreditavam. Alguns amigos tentam justificar o comportamento do artista: “Edna não conseguiria sozinha virar a cabeça de alguém inteligente como Belchior. São dois sonhadores, juntaram suas utopias. Deixaram de acreditar neste mundo materialista, objetivo e mesquinho e partiram para um caminho de desapego”.
Belchior é um artista com vasta cultura, domina cinco idiomas, conhece filosofia e gosta de física quântica. Até os anos 2000, lançava em média um disco por ano. “Ele era uma máquina, chegava a fazer três shows por noite. Era uma pessoa completamente dedicada à carreira”, diz o parceiro e ex-sócio Jorge Mello.

Depois que conheceu Edna, Belchior percorreu uma trajetória descendente em que, aos poucos, se despojou de todos os bens e obrigações. No final de 2006, ainda com a carreira aquecida, pediu que o empresário Jackson Martins parasse de agendar novos shows. Pretendia passar um tempo se dedicando à pintura e à tradução do poema Divina comédia, de Dante Alighieri, para uma linguagem popular. No início do ano seguinte, deixou o apartamento em que vivia com Ângela, mas continuou morando em São Paulo com Edna, num flat alugado. Desde então, a família diz não ter mais notícias dele.
Belchior continuou em São Paulo até 2009, quando deixou o flat sem quitar os últimos meses de aluguel.  Na garagem, ele largou um segundo carro e, em seu apartamento ficaram roupas, rascunhos de música, cartões de crédito e o passaporte. Belchior também abandonou tudo na casa alugada onde funcionava seu escritório: coleção de quadros, discos, documentos e o computador onde estava parte da tradução da Divina comédia, projeto que lhe consumira três anos. 


Belchior e Edna perambularam durante todo esse período de hotel em hotel – várias vezes, sem pagar a conta. Amigos culpam Edna pela iniciativa. O primeiro hotel em que isso aconteceu foi o Gran Marquise, em Fortaleza. Os dois ficaram hospedados ali ainda em 2006. Saíram sem pagar dois meses de estadia, no valor de R$ 8 mil. Depois, repetiram a prática em pelo menos quatro locais. No Icaraí Praia Hotel, em Niterói, deixaram uma conta de R$ 4 mil. “Alguns funcionários tiveram de arcar com parte da dívida, já que permitiram que ele ficasse hospedado mais de uma semana sem pagar a conta”, diz o atual gerente, Germano Lopes. No Royal Jardins Boutique, em São Paulo, a conta pendurada foi de R$ 12 mil. “Eles deixaram um cheque caução, mas não tinha fundos”, diz Elly Shimasaki, gerente na ocasião.

O caso mais recente foi no hotel Cassino, na cidade de Artigas, no Uruguai, onde o casal se hospedou entre julho de 2011 e novembro de 2012. Os últimos meses ficaram sem pagamento, restando uma dívida de R$ 35 mil. Lá, Belchior deixou para trás roupas e um laptop. 


Em Porto Alegre, Belchior e Edna ficaram inicialmente hospedados num hotel simples no centro, pago com ajuda dos funcionários do Tribunal de Justiça, primeira porta em que o casal bateu quando chegou à capital gaúcha. Depois, foram abrigados no Centro Infanto juvenil Luiz Itamar, instituição de caridade na região metropolitana. Dali, foram levados ao advogado Aramis Nacif, ex-desembargador do Estado, que poderia ajudar Belchior com os processos. “Ele dizia que um agente apareceria, mas nunca apareceu”, diz Nacif. Durante um mês, o casal ficou abrigado na casa de praia do filho dele. “Eles não tinham dinheiro algum. Edna apresentava um sentimento de perseguição muito grande, parecia ter algum distúrbio psicológico”, diz. Foi nesse momento que Belchior conheceu o advogado Jorge Cabral, na casa de quem se hospedou por quatro meses.
Em julho deste ano, Cabral pediu que o casal saísse, dado que Belchior e Edna não davam sinal de acabar com aquela situação de total dependência.

Belchior foi visto pela última vez na entrada do prédio, um edifício moderno num bairro de classe média de Porto Alegre, em frente a uma avenida bastante movimentada. Carregava uma pequena mala nas mãos e material de pintura debaixo do braço. Estava, como sempre, ao lado de Edna.  

Informações fornecidas pelo site da revista Época – Marcelo Bortoloti.

Resolvi publicar esta informação pois estou inconformada. Temos perdido tantos artistas maravilhosos ao longo dos anos, não sei se Belchior tem o direito de nos privar de seu brilhantismo desta forma... mas, talvez, ele tenha encontrado o que tanto buscava ao lado de Edna...
Por enquanto o que me resta é o alento de suas letras já gravadas e regravadas. E, ao ouvi-las, penso que, talvez, ele já estivesse dando seu recado há muito tempo, e hoje colocou-o em prática.


“... e no escritório em que eu trabalho, e fico rico, e quanto mais eu multiplico, diminui o meu amor”...


http://nacodeprosa.blogspot.com.br/2014/01/o-que-tera-acontecido-belchior_7.html

Querendo, leia também:
http://www.correiodopovo.com.br/blogs/juremirmachado/2013/01/3765/tres-dias-escondendo-belchior-em-porto-alegre/

Belchior com a ex-esposa Angela, a mãe Dolores, a filha Camila, a irmã Angela, e os amigos Tota e Conceição Marques, nos 80 anos da mãe do compositor (acervo Tota)
Aparências - https://www.youtube.com/watch?v=su9q7nnJZqQ&list=PLmBOSkIIZOiVxoi0u4ewlIWb10d3_bpuO&index=19

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes nasceu em Sobral, CE, em 26 de Outubro de 1946. Durante a infância foi cantador de feira e poeta repentista. Estudou musica coral e piano com Acaci Halley. Foi programador de radio em Sobral, e em Fortaleza CE começou a dedicar-se a musica, após abandonar o curso de medicina. Ligou-se a um grupo de jovens compositores e músicos -- Fagner, Ednardo, Rodger, Teti, Cirino e outros -- conhecidos como o Pessoal do Ceara.

Lindamente brasileira - https://www.youtube.com/watch?v=0HnbyaNgpSg&index=17&list=PLmBOSkIIZOiVxoi0u4ewlIWb10d3_bpuO

"... aqui os mortos são bons, porque não comem o pão dos vivos..." linda, linda canção! Os versos do início, de Castro Alves, eu os recitava na minha primeira infância Aguapé
https://www.youtube.com/watch?v=paZ7WR451Bg

https://www.youtube.com/watch?v=4w14MG4Nz_o&index=25&list=PLmBOSkIIZOiVxoi0u4ewlIWb10d3_bpuO

Ypê - https://www.youtube.com/watch?v=zbLoKIQdcNg

Mostra a casa em Santa Cruz do Sul - https://www.youtube.com/watch?v=VTjh7xtp00o

2011 - Jovens Talentos - https://www.youtube.com/watch?v=BKTRCSZU6pU

Aneurisma na aorta - http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2017/05/1883997-doenca-que-matou-cantor-belchior-dilatacao-da-aorta-e-silenciosa-e-fatal.shtml

Será inaugurado em Fortaleza nesta quinta-feira (18.maio.2017) o Centro Cultural Belchior, homenagem ao cantor cearense falecido em 29 de abril. O equipamento tem 850 metros quadrados, auditório, salas e galerias para exposição, biblioteca, café, sala de reunião, administração, plataforma elevatória para cadeirantes e área de uso comum, no pavimento superior, com vista para o mar.
"É mais um passo no desenvolvimento do Projeto de Requalificação da Praia de Iracema. Nosso intuito é resgatar a vocação boêmia do bairro, atrair visitantes e ampliar a sensação de segurança na área", afirma o secretário Ferruccio Feitosa.
Para o secretário da Cultura de Fortaleza, Evaldo Lima, o Centro faz uma justa homenagem ao cantor Belchior, grande nome da música cearense.
"Cada espaço do Centro homenageia uma das músicas de Belchior, como o auditório A Palo Seco, a Galeria Fotografia 3x4 e a Sala Mucuripe. A inauguração do Centro é mais uma ganho para a cultura da capital cearense", diz o secretário da Cultura de Fortaleza, Evaldo Lima.
Na inauguração, a população assistirá a vídeos e poderá visitar um acervo de telas do Belchior, além de assistir apresentações musicais em tributo ao artista. A solenidade está agenda para 17h desta quinta, na Rua dos Pacajus, 123, Praia de Iracema.










2 comentários:

  1. Obrigado pelas palavras... Belchior não nos pertencia... Tivemos apenas o privilégio de tê-lo conosco por algum tempo...

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    1. concordo plenamente! O amigo, em Santa Cruz do Sul, quando o corpo estava saindo da casa, gritou pertinente uma saudação certeira: "Que a terra te seja leve, tu, que pisaste tão pouco nela!" Que os vôos deste poeta cantador, músico e pintor estejam sendo plenos e felizes! Saudades!

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