sábado, 12 de fevereiro de 2011

Egito pós Mubarak - Porque Egito tem tantos jovens?

Egito pós Mubarak - esperança de empregabilidade

Egito pós Mubarak - Porque Egito tem tantos jovens?

Por Marise Jalowitzki
12.fevereiro.2011

Porque Egito tem tantos jovens?
O que farão os jovens agora?
Haverá trabalho para eles em seu país?

Em 1981 tínhamos alguns vizinhos do mundo árabe. Eu havia sido transferida recentemente para Chuí, zona de fronteira, gerenciando uma pequena agência de empresa nacional.

Era tudo diferente por lá. Uma Internacional dividindo os dois países, um rádio amador que servia tanto ao Brasil como ao Uruguai, que me acordava ainda de madrugada: Alô, Chuy? Alô Marise!

Havia solicitado a minha transferência pois estava casada com um uruguaio que, para receber seu visto, precisaria estar trabalhando com carteira assinada no Brasil e ali isso havia sido possível. Com a Lei dos Estrangeiros emitida em novembro de 79, a situação pôde ser regularizada dessa forma.

Era "la señora del correo" e, com um ajudante só, "fazia chover" para atender a todas as comunidades. Sim, pois além de brasileiros e uruguaios (ambos sob regimes políticos que "adoravam" torturar os opositores) havia também o povo árabe, composto por egípcios, libaneses - árabes sauditas.

O comércio era bastante ativo devido às suas presenças que, com suas lojas bem diversificadas, abasteciam também o "tráfego formiga", pequenos contrabandistas que amarravam lençóis na cintura, por exemplo, para vender na ROU. Era outra cultura, a predominante. O Tiburón fazia sucesso no único cinema da localidade, do lado uruguaio.

O mundo árabe sempre foi reconhecido pela sua natural belicosidade. Ainda havia a fumaça da Guerra em Suez e dos Seis Dias. Na noite de outubro de 1981 em que Anwar Al Sadat foi assassinado, ouviram-se foguetes em Chuí, junto a gritos roucos de palavras que não entendemos. Sadat tinha se aproximado de Israel (foi Nobel da Paz por isso) e, ao ser morto, havia a ameaça de reacender os conflitos.



Anwar Al Sadat - Nobel da Paz - Presidente egípcio assassinado em 1981, quando Murarak, seu vice, assumiu


Ali, em Chuí, a ponta extrema do Brasil, alguns comemoraram a ascensão de Mubarak ao poder.

O vizinho egípcio que vivia ao lado de nossa residência, soltou alguns impropérios e fechou suas portas com estrondo. Também não entendemos, mas, pelo tom de voz, depreendemos que a rivalidade suportada trazia desconforto. Isam, o filho dele que brincava com a nossa filha, no dia seguinte, não foi à aula, nem saiu de casa. Diferenças políticas, rivalidades históricas, tendo Israel como palco.

O convívio, apesar das manifestações, continuou pacífico.

Os árabes, além das grandes fotos de seu governante, ostentavam também o enorme poster de sua mãe ou esposa, que muitas vezes ficava no Oriente, cuidando dos filhos maiores. Geralmente eram posters de mulheres bastante dotadas, sorridentes. Os filhos menores eram criados até a idade média de 10 anos para só então serem enviados para o seu país de origem.

Essa é a razão de haver tantos jovens. Os homens adultos estão trabalhando no estrangeiro. Soube disso porque, à época, Chuí brasileiro queria se independizar e não tinha população registrada suficiente para que tal fosse possível. As crianças árabes não eram registradas no Brasil. Os pais continuavam trabalhando no exterior para sustentar as famílias. Era a forma de manter um padrão de vida, frente às dificuldades econômicas históricas.

Trinta anos de Mubarak só fizeram recrudescer o quadro.

O país está baseado fundamentalmente no turismo.

Agora, é torcer para que, pacificamente, o país possa conquistar um nível de progresso condizente com toda a energia que esta juventude precisa e merece. Para que os jovens de hoje possam permanecer em seu país, constituir suas famílias e criar seus filhos em suas terras, como desejaram seus pais e avós.

Marise Jalowitzki
Escritora
marisej@terra.com.br
Porto Alegre - RS - Brasil
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