sexta-feira, 2 de julho de 2010

A CARA DO DUNGA



A CARA DO DUNGA!
Marise Jalowitzki

O que acontece agora com Dunga?
O técnico italiano assume toda a responsabilidade do erro na escalação e no desempenho da equipe.
O técnico francês precisa se explicar até no Parlamento. Le Monde noticiou, por ocasião do retorno dos jogadores "Acabou o martírio", solidarizando-se com os jogadores e torcedores.(Blanc vem aí!)
O técnico brasileiro declara na primeira coletiva: "A responsabilidade é de todos!" Será?

No primeiro tempo, Holanda deixa o Brasil com o sabor da Vitória. Brasil foi maior em campo, saiu com o escore vencedor.

Sobre Felipe Melo: desde a escalação, todos os torcedores comentavam: "jogar ele joga bem, a maior briga dele é com o seu temperamento!".E todos torciam para que ele (Felipe) não se deixasse envolver em uma situação que exacerbasse seu temperamento revanchista, mais violento. E quem Dunga tinha como reserva? Para servir como equivalente em uma situação mais crítica?

Mesmo no primeiro tempo, Holanda, logo ao tomar o gol, tentou empatar. O comentarista falava: "É da personalidade do time holandês: toma bola, vem pra frente!" O que Holanda rearranjou no vestiário? Vamos voltar com tudo! Eles já estão meio cansados, ao mesmo tempo confiantes no 1x0 e irritados com a atuação do juiz! O 1x0 deu a impressão de vitória, agora vamos chegar mais, ficar mais no contra ataque, pular, fazer mais teatro, encenar, tentar comprar a percepção do juiz.
Brasileiro foi se esquentando. Foi se revoltando.

1° momento marcante de instabilidade emocional: o próprio técnico, gritando e esbravejando, mesmo quando não tinha razão na sua percepção.
2° momento marcante de instabilidade emocional: pouco antes de levar o gol da Holanda. Atleta brasileiro se revolta de maneira contundente pelo teatro do holandês, que pula um metro de altura, simulando a falta e recebe o acolhimento da arbitragem.

Holanda sabe do tendão de Aquiles dos brasileiros e aproveita. Resultado: empate.

De quem é a seleção? Do técnico? Da FIFA? Ou dos torcedores de uma nação? É preciso rever tudo isso!
Dunga ficou contra uma nação!
Há um disparate, um gigantesco desvio de foco!
Aconteceu na política, há pouco tempo, quando os parlamentares declararam "esta não é uma prioridade do governo, é uma prioridade do povo brasileiro. A prioridade do governo é o pré-sal" (referindo-se ao pedido de urgência na, agora vitoriosa, Lei Ficha Limpa).

Assim, também, com o (agora ex) técnico da Seleção. Dizer em coletiva, abertamente, que esta "não é a Seleção de vocês" foi tentar colocar os torcedores (razão da existência do esporte futebol) contra os jogadores! O rombo estava feito! Ficar contra 190 milhões e mais alguns milhões pelo mundo afora, resultaria em que? Joel Santana teve a dignidade de sair como técnico da seleção africana quando as solicitações para convocar certos jogadores ficou mais forte. "Eu não aceitei mais ser mandado" - disse ele - "Sou um técnico e monto um time pra tentar ganhar e não para satisfazer alguns!" Ok, se, porventura, Dunga tivesse pensado assim, e pedido pra sair (caso estivesse tão indignado), talvez o resultado fosse até o mesmo que foi, mas a tristeza e a indignação seriam menores.

Mesmo com as declarações agressivas do Dunga, (ex)técnico brasileiro, com maestria, a torcida entendeu a gravidade e a importância do momento e, passada a indignação inicial, continuou torcendo, encheu os espaços com o som das vuvuzelas, pintou a cara de verde amarelo, coloriu as ruas, elevando a esperança na vitória.

Papel do líder em situações de desafio
O papel do líder, em situações de desafio, é fundamental! O líder precisa ter bem claro quem é o seu público-alvo (no caso, os torcedores brasileiros!) e com quem ele conta (sua equipe técnica). Para que o seu produto seja bem aceito no mercado (resultado nas partidas e desempenhos dos comandados - colaboradores) precisa CATIVAR ESTE PÚBLICO-ALVO! E não será na base do "Viram que eu tinha razão?" - pois, assim, ao menor deslize, ou, pior, por ocasião do insucesso (como aconteceu hoje), todo mundo lembra de tudo, desde o início, e cai de pau em cima!

Nas empresas, no pós-venda (follow-up) há a realização de uma PESQUISA DE SATISFAÇÃO DO CLIENTE, que é o que garante a continuidade ou não de um produto. O resultado é que marca os próximos passos.

No caso da Copa do Mundo, a coisa fica até meio tranquila: não dá certo, amarga a manifestação do descontentamento dos torcedores (Clientes) e sai. Na próxima Copa, novo técnico, renova-se tudo outra vez, reacendendo as esperanças a partir do zero. Como na política.

Dois sistemas errados. Onde o Compromisso?
Como o povo não tem vez? Se é ele quem determina a liquidez no caixa dessas duas empresas (política e futebol)? Estará assim garantida a sobrevivência? O que garante a sobrevivência do esporte? O costume? O hábito? A necessidade de distração? OU a esperança sempre renovada de tentar ser feliz?

Onde Dunga teve participação direta no descontrole de seus pupilos: o tempo inteiro, no primeiro tempo; Brasil era superior em campo, tinha domínio da bola, tinha a favorabilidade do escore e ele pulando, gritando, acocorado no chão, batendo o punho no gramado, ou batendo forte nos pilares. Recebia até o sorriso dos colegas, pois, algumas vezes, nem razão tinha. Ora, se o líder demonstra tamanha indignação frente aos possíveis erros da arbitragem e pela atuação "teatral" em vários passes do adversário, claro que vai influenciar a equipe, que já tem como ponto fraco a instabilidade emocional.

Ou seja, o descontrole de Dunga, brigando com jornalistas, desdenhando dos torcedores brasileiros "...a seleção do Brasil, aliás, a minha Seleção, pois não é a Seleção de vocês"! já dava mostras, lá atrás, de que a coisa tinha grandes chances de acabar como acabou.


Trabalhar na previsibilidade do erro é cavar a derrota!

Desde o início, por ocasião da divulgação da convocação, que se falava em Felipe Melo como um cidadão por demais esquentado. Uma mudança no controle emocional não acontece assim por assim. Em primeiro lugar, está sendo feito um trabalho mais focado com este atleta? Que trabalho? Sim, pois não são algumas palestras motivacionais que irão mudar comportamentos arraigados. E, quando o próprio técnico estava com os nervos exageradamente à flor da pele, como questionar uma postura diferente de um jogador? E, mesmo, da equipe toda?

Há tempos venho trabalhando nos grupos a questão da competência emocional. Primeiro, a própria pessoa precisa se dar conta de que há um deslize; isso deve incomodar a ela, ela precisa querer mudar. E, aí, levar a sério!

Dicas Básicas - Âncoras
1 - Convencer-se de que é bom!
Será que a equipe que formou a Seleção 2010 assistiu, em grupo e isoladamente, 200, 300 vezes, videos onde ELES estavam bem, onde ELES tiveram atitudes de campeão, a fim de reforçar a auto estima? Sim, pois acessar essas imagens mentais de VENCEDOR nos momentos que exigem superação, concebe uma força de renovação muito grande para manter a postura de CAMPEÃO!


2 - Transformar a raiva em técnica!
Para trabalhar a raiva: Rever 200, 300 vezes uma imagem de raiva e descontrole SEU e, logo após, sobrepor aquela imagem com uma de acerto, de vitória, de sorriso, de ganho! Quem não tem condição de fazer um video real, faça-o mentalmente. Selecione primeiro as imagens em sua tela mental (lembrança), escreva, para se lembrar e, depois, exercite esta lembrança, em flashback, em qualquer lugar, até tornar-se uma reação normal.

E, quem quiser, cultive esta dica logo, pois vai precisar! Passado o primeiro momento de decepção e tristeza, o choro vai passar e vai ceder lugar à raiva, ao ressentimento. Dunga mora aqui em Porto Alegre, na Zona Sul. Que ninguém o espere em frente a sua casa!... Vamos ser equilibrados emocionalmente!!! Pero que merecia... Deixa prá lá!!! Agora, de nada adianta! Não tem vuvuzela, jabulani, o que seja, que vai trazer esse tempo de volta!!!

A vida, se for apenas erro-acerto, não sai do lugar! É preciso melhorar, evoluir!!!

Valeu! Às Mensagens! Às imagens! Às cores! À Vuvuzela! Aos sorrisos! À Esperança!
Não Valeu! Ao desequilíbrio! À constestação! Ao não saber ouvir! Ao fechar-se!


Não merecíamos ter a foto de nossos jogadores estampados em todos os jornais do mundo, de azul, sentados de cabeça baixa!... É a cara do Dunga!



Fica o SAY NO TO RACISM, DIGA NÃO AO RACISMO, GIVE PEACE A CHANCE, DÊ UMA CHANCE À PAZ!
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MARISE JALOWITZKI é escritora, consultora organizacional e
palestrante internacional, certificada pela IFTDO-USA, pós-graduação
em RH pela FGV-RJ, autora de vários livros organizacionais.
marisej@terra.com.br
F (51) 97056424
Porto Alegre - RS - Brasil
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2 comentários:

  1. Cara Marise,

    Belo texto e muito oportuno. Esta derrota nos ensina muito sobre os malefícios de uma "liderança" raivosa e insegura. No momento crítico em que a equipe precisava de uma atitude de tranquilidade e equilíbrio, via seu técnico totalmente descontrolado e desorientado.

    A derrota é amarga, mas corta na raiz um péssímo exemplo de "liderança" e abre caminho para o retorno do futebol que combina arte, competência e resultado (assim espero).

    Abraços

    Jairo Siqueira

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  2. Muito grata por comparecer e pela contribuição, Amigo Jairo! Permanecemos em consonância.

    Terminou o jogo Argentina x Alemanha e Argentina volta para casa, depois de terríveis 4 x 0 . O que Maradona fez ao final do jogo? O de sempre. Permaneceu em campo e abraçou, um por um, a todos os jogadores. Como sempre fez. Como Dunga não fez. Essa é a diferença!

    Abraços!
    Marise

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